quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ariano e o Google




Se todo conservador fosse como Ariano Suassuna, a gente se divertia muito mais - e ficava um bocado mais inteligente, o que nunca é demais. Vejam vocês a história que ele conta na revista "Caros Amigos" deste mês sobre a relação que tem com um negócio que já foi um bicho de sete cabeças, coisa do futuro, mas hoje é matéria comum do tipo em que se tropeça em qualquer canto de rua, chamado computador (e mais especificadamente, Google):

"Eu vou lá aceitar sugestão de computador? Meu nome completo é Ariano Villar Suassuna. Botou Ariano e o computador aceitou. Foi colocar Villar, ele recusou e sugeriu vilão. Aí ela foi colocar Suassuna, ele recusou e, não sei se por causa do número de S, sugeriu assassino. Meu nome no computador é Ariano Vilão Assassino. E dizem que sou inimigo dele. Ele é que é meu inimigo."

Sei não, mas desconfio de que, com esse senso de humor e talento para compor uma boa pilhéria, Ariano na verdade seja um assíduo frequentador do Google e quejandos, talvez tenha até um punhado de fakes para quando deseja  dar umas incertas no Facebook, outros pra azucrinar a pasmaceira do twiter e por aí vai. Depois que o homem se for - tomara que demore muito - é capaz de descobrirem na casa dele lá pras bandas de Casa Amarela, em Recife, um cômodo secreto onde Ariano ria do mundo e da sua fama de avesso à tecnologia; uma sala equipada com sei-quantos terminais, scaner, HD e o diabo a quatro, numa festa armorial-informática de que seus fãs jamais desconfiariam. Que ia ser divertido, ia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Policial de transição


"Cop Land" (James Mangold, 1997, disponível em DVD) é um daqueles filmes que, sendo pequenos e despretensiosos, grudam na sua memória com o poder sintético de uma novela literária, uma crônica certeira ou um capítulo de livro especialmente marcante. Não fez grande sucesso, mas tem lugar garantido na memória dos tempos do cinema em VHS que marcou as décadas de 80 e 90 pra muita gente. Como gênero, fica entre o policial e o drama - mais o segundo do que o primeiro. Como narrativa, é quase uma referência paralela ao Quentin Tarantino que renovava o gênero com Pulp Ficcion, mas aqui sem qualquer adereço de montagem; sustentado apenas na força dos conflitos que lhe servem de suporte. Como espetáculo, é nada. Como dramaturgia, é do tipo que convence no início, pede sua paciência no meio e lhe recompensa ao final. Um filme sem firulas para quem gosta de cinema sem rodeios. 

Pense num elenco que daria um daqueles filmes caros, de propaganda exagerada, bilheteria espetacular e tratamento idem. Pois "Cop Land", cujo título se refere a uma comunidade de policiais em New Jersey, EUA, é o oposto de tudo isso: um anticlímax total para quem cai na isca grandiloquente do cinema tipo arrasa-quarteirão. Tem Robert de Niro, Harvey Keitel, Ray Liotta e o velho Balboa, ele mesmo, Sylvester Stallone, aqui antecipando em décadas o Rock que faria ao retomar a série de filmes do lutador alguns poucos anos atrás. Acreditei no xerife de Stallone neste "Cop Land" com a mesma falta de desconfiança que lhe destinei quando, de calças curtas, sofri com ele no "Rock II - A Revanche", que mesmo fora de ordem foi a primeira vez em que o encontrei no cinema. Podem puxar a ficha habitual que o qualifica como o canastrão-mor da capitania cinematográfica norte-americana que eu não mudo de opinião. É de reverente dignidade a decadência que ele apresenta no drama policial agora em questão. 

E desta vez não é com a soberba do adversário de luvas  Apolo Creed que ele tem que se ver, mas com uma confrafia de policiais sutilmente corruptos que lhe serve de vizinhança e apoio psicológico (o homem é traumatizado por ter perdido a audição e por isso ser impedido de virar um tira "de verdade"). Não se preocupe que no desfecho não há a menor chance de Stallone se tornar um Rambo nas selvas urbanas que se projetam para além de Manhatan, mas dificilmente você deixará de notar no tiroteio final de "Cop Land" um signo reprocessado daquelas sequencias míticas dos westerns mais enraizados. 

Quer dizer: este filme que começa como um policial feito dentro da convenção e evolui para um drama de feridas psicológicas vai desembocar numa baita cena clássica que reproduz em ambiente suburbano o enfrantento típico do mais americanos dos gêneros, o faroeste de casas de madeira e ruas poeirentas. No que "Cop Land" remete imediatamente à dilaceração grupal que marca "Cães de Aluguel" (1992), cartão de apresentação do Tarantino em ebulição mais ou menos no mesmo tempo e lugar. De maneira que, ajustado nos desencontros da linha do tempo (não parece, mas" Cop Land" foi lançado três anos após a renovação de  "Pulp Fiction", de 1994), este filme é como um rito de passagem atrasado entre a violência dramática da turma de Martin Scorsese e a aventura cult e estilizada da geração Tarantino. 

Feriado na feira



A hamaca é de Poti, mas a dica de hoje é de coloração candanga: trata da tradicional, mas agora returbinada, Feira da Torre no centrão da capital de Jotinha. O que era uma espécie de mercadinho de lembranças de viagem para quem vinha ocasionalmente a Brasília foi ganhando fôlego e mudando suas feições. Uma mudança que foi ficando mais e mais evidente após a transferência da feirinha para as novas barracas ao fundo da Torre de Tevê. O resultado é que agora a feira pode muito bem reivindicar a condição de espaço de passeio de quem convive com BSB Citi por muito mais do que uma viagem cívico-política de fim de semana ou uma convenção partidária. 

Sem rodeios: a Feira da Torre é um programão para quem quer respirar os ares do centro de Brasília - até porque a atmosfera daqui se renova quando o ar quente da seca dá lugar ao ar úmido do verão -, para quem quer provar um sabor regional acondicionado em barraquinhas - que vão da tapioca à cocada baiana -; assim como para quem quer nada mais do que se divertir com a criançada empinando uma pipa. Dá até pra comprar uma lembrancinha da capital, viu?

O que é que feirinha tem? Tem acarajé, tem sofá sob medida, tem artesato em metal ou pano, tem o reduto raggae que é uma de suas marcas principais, tem camiseta da Legião Urbana, tem cheirinho pro banheiro, tem o escambau. Tudo isso num pequeno planalto à parte na região central da cidade, com o céu característico da cidade a um toque da mão e o chão vermelho dos trechos não pavimentados também prontinhos para empastelar seu calçado. Se chover - e chove nesta época, é batata e é uma benção - corre-se o risco de sair da feira com o espírito satisfeito e a roupa encharcada: mas até esses incovenientes de feira ao ar livre (na seca, é o excesso de sol quem ataca) fazem parte do passeio, obrigando o brasiliense natural ou artificial a sair do circuito Parkshopping-Pátio-Terraço-Iguatemi-e-Quejandos.

A Feira da Torre tem o poder de fazer você esquecer que está numa cidade demarcada pelo trinômio política-burocracia-alto consumo. Insere plantas de verdade no chão de Lúcio Costa, despeja cores no preto-e-branco do calendário da cidade, toca uma musiquinha peruana para lhe lembrar, para além do seu bom gosto dirigido, que você também é apenas um rapaz latino-americano, man. E ainda oferece, embora por precinhos cada vez menos camaradas, uma fileira de objetos para você sacramentar suas ligações fetichistas com o lugar que habita, composto por um cerrado que está sempre em volta e que nem sempre você é capaz de ver.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Contagem regressiva



O fim do ano está chegando e com ele o nobre janeirão que mais uma vez vai levar a gente pra Natal, a cidade. Essa legenda é só pra lembrar que desde já estão reservados dois lugares - um na parede e outro na estante - para os objetos recordatícios que, de uns anos para cá, foram acrescentados à bagagem de retorno. Na parede, tá guardado o canto onde vai se infiltrar a quarta placa da série que a gente passou a colecionar à guisa de fetiche saudosista: cada vez que piso nos doces tabuleiros litorâneos de Poti, trago um. Assim é bom porque dá até pra contar o número de viagens só de olhar a parede do escritório caseiro. 

O outro souvenir que bem se tornando obrigatório é mais um livro de fotografias do poti-equatoriano Fernando Chiriboga: já temos aquele do sertão e da Natal noturna. Desta vez, quem sabe não vem o das praias? Se bem que deu no Facebook, por artes do repórter Sandro Fortunato, que Canindé Soares também está lançando um portfólio natalense livresco para quem cultiva as paisagens campestres ou urbandas da capital de Cascudo. 

Este post, além de servir ligeiramente como dica de presente de Natal, a festa, também é, na sua aparente inutilidade, uma forma de dizer que quando chega o verão vem esse desassossego bom que instala a contagem regressiva rumo às férias. E desta vez elas devem ser ainda mais especiais, pois que o ramo por acaso brasiliense da Família Bagunçada agora vai se hospedar junto ao tronco principal, bem ali no Maria Isabel Pitimbu Resort, que só aceita reservas de gente muito diferenciada - e oferece um bônus quase nunca visto na rede hoteleira convencional: carinho de vó pra Cecília e Bernardo. E aconchego certo pro resto do povo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ligue a tevê (ou veja na internet)



Ainda é novidade na televisão este programa da TV Brasil conduzido e pensado pelo cara de teatro Aderbal Freire-Filho. Acabei de ver uma das edições na página do canal na internet. Há outros lá - muitos. Nesta edição, Aderbal entrevista o escritor Ruy Guerra, o diretor teatral Ruy Guerra, o cineasta Ruy Guerra e outros Ruys que este Guerra comporta. Um programa despojado, inteligente, provocativo, instigante e divertido. Novidade na televisão que a TV Hamaca recomenda.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Aqui, ali, em todo lugar



"Gostaria de saber o que vai ser deste país. O que será deste maldito país?"

Parece desabafo de neodireitista que, a despeito do entusiasmo com o andar da carruagem no STF, jamais deixa de sentir o supremo prazer de celebrar o fato de se sentir superior a uma pátria de pobres sem educação? Pois não é: continuemos a leitura.

"O sr. X já estava acostumado com estes comentários. Era uma pergunta feita quase que invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, pelos seus clientes no últimos vinte anos."

A omissão do nome do personagem é apenas para destacar o conteúdo das ideias expressas neste texto narrativo, que a cada frase faz a gente pensar que se trata de uma ficção a partir da realidade braileira dos neo-aloprados de dias desses até hoje. Vamos em frente, tem mais:

"Tudo começou com aquele maldito governo trabalhista. Mandando todo o país para o inferno. E o governo que agora temos não é nem um pouco melhor!"

Diga aí se não parece a pronúncia revoltada que tanta gente usa no Facebook ou no Twitter, como a atribuir, em nível psicanalítico quase subterrâneo, os fracassos pessoais às maldades dos governos, especialmente quando se trata de governos eleitos por representar, agh, trabalhadores sem verniz... Tem mais, tem mais:

"Um bando de socialistas hipócritas! Olhe a que ponto chegamos! Não podemos nem arranjar um jardineiro decente nem empregadas!"

Precisa dizer mais? Bom, só pra fechar com um pensamento bem pequeno, típico de quem, mal tendo saído do corte econômico de renda modesta com a qual muitos pobres ainda sonham, já se acha diferenciado a ponto de desabafar:

"Não existe mais lealdade na classe baixa..."

Agora, os esclarecimentos: o que você leu acima não são trechos de um livro que acabou de ser lançado pelo jornalista Guilherme Fiuza, ou de um filme que acabou de ser feito por Arnaldo Jabor; menos ainda de uma seleção de crônicas que Ali Kamel lançou para lustrar seu currículo platinado.

O que você leu acima, entre aspas, são trechos do livro "Depois do funeral", da lavra literário-aristocrática de Agatha Christie, numa de suas inúmeras histórias de crime em família mais do que conhecidas pelos viciados neste hábito abominável chamado leitura. Ocorre que o livro se passa, óbvio, na Inglaterra da autora, num período logo a seguir ao fim da II Guerra, quando a penúria financeira e social fazia parte do quadro de consequências que o conflito deixou.

Os trechos - a fala de um personagem tão ocioso e desprezível quanto mais superior ele se julga - está entre as páginas 62 e 66. Representa um segmento de pensamento que, infelizmente, não é propriedade de um país em construção como o nosso território brazuca, mas uma postura comum a qualquer gente sem disposição para trabalhar, construir, refletir e seguir em frente. É um anti-ideário que enxerga no fracasso coletivo um bálsamo pra anestesiar suas próprias crises individuais. É algo humano demais pra ser propriedade de um povo só.

Uma pequena lição embutida no entrecho de um livro que o Leitor Bagunçado leu pela primeira vez quando tinha uns 16 anos - já lá se vão três décadas - e que agora tem o prazer de reencontrar, assim como um outro título de Agatha Christie, "A mansão Hollow", usufruído na semana passada.

Ficou impresssionado com as coincidências? Releia o post;  procure o livro nos sebos, compare, tente entender melhor sobre os países, as sociedades e os seres humanos. De quebra, ainda tem um crime a ser desvendado. Um crime literal, com sangue e tudo - nada dessa abstração conveniente chamada mensalão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A alegoria do açude


Vicente Serejo escreveu o texto abaixo, publicado no blog do Sebo Vermelho. É interessante e instigante demais não ser copiado e passado adiante: 

O sertão de Oswaldo Lamartine, desde A Caça nos Sertões do Seridó, seu livro de estréia, em 1961, foi sempre erguido com a literariedade das coisas materiais e ao mesmo tempo alegóricas. Um território épico e lírico ao mesmo tempo, marcado pela dura realidade de um chão de espinhos e, ao mesmo tempo, forrado de flores. É como se a vivência do etnógrafo e as lembranças do menino se misturassem nos olhos do escritor, fazendo da narrativa a argamassa da construção e da reconstrução.
 
    E uma das narrativas mais exemplares dessa fusão que de um lado documenta e do outro liberta a imaginação é exatamente este ensaio que merece uma nova edição, agora autônoma, depois de ter sido parte integrante de 'Sertões do Seridó', a reunião dos olhares oswaldolamartianos, editados pelo Senado Federal com prefácio erudito e consagrador do professor Francisco das Chagas Pereira que faz, certamente, a primeira tomada de posse acadêmica e ao mesmo tempo literária da obra de Oswaldo.
 
    Cuidadoso no esmero e na exatidão da síntese, Oswaldo nada esquece quando documenta. Sabe cumprir o belo aprendizado que reconheceu ter guardado de leituras e conversas com Câmara Cascudo ainda quando espiava, espiava e não via o sertão monumental. E o homem feito no talhe de um grande leitor descobre o outro sertão que ia além, muito além daquelas serras da infância. E é este sertão que ele ergue. Épico e lírico, entre pedras e páginas, silêncios e palavras, numa pastoral de reencontros.
 
    Quem mergulha nas águas do seu açude, cristalinas de tão cheias de sol ou turvadas das chuvas nas invernadas do sertão, vai descobrir que o açude grande, de verdade, e o pequeno, invenção dos meninos, são feitos da mesma carga emocional. Não é à toa que ele vai buscar numa quadrinha popular de José Lucas de Barros a certidão, como um ferro de gado, para marcar o que precisa reservar como posse e domínio:

    Vendo d'água a terra cheia
    Eu sinto doce lembrança
    Do meu tempo de criança,
    Dos meus açudes de areia   

    Na porteira deste seu ensaio que agora o Sebo Vermelho reedita, Oswaldo teve o cuidado de demarcar o açude como um território dessa infância que reconstrói a cada livro e que nasce do seu olhar de sertanejo cósmico e universal. O seu açude não é apenas o lugar que os homens da civilização da seca inventaram, nas gargantas das serras, para que as águas fossem prisioneiras da necessidade humana. É também, com as suas águas, um símbolo de vida, o lugar bíblico da criação.
 
    Eis sua descrição na abertura do texto, antes dos aspectos históricos e técnicos, estabelecendo estética de uma cartografia alegórica e, por isso mesmo, livre do apenas real.
   
'Espia-se a água se derramando, líquida e horizontal, pela terra adentro a se perder de vista. As represas esgueiram-se em margens contorcidas e embastadas, onde touceiras de capim de planta ou o mandante de hastes arroxeadas debruçam-se na lodosa lama. O verde das vazantes emoldura o açude no cinzento dos chãos. Do silêncio dos descampados vem o marulhar das marolas que morrem nos rasos. Curimatãs em cardumes comem e vadeam nas águas beirinhas nas horas frias do quebrar da barra ou ao morrer do dia. Nuvens de marrecas caem dos céus. Pato verdadeiro, putrião e paturi grasnam em coral com o coaxar dos sapos que abraçados se multiplicam em infindáveis desovas geométricas. Gritos de socó martelam espaçadamente os silêncios. O mergulhão risca em rasante vôo o espelho líquido das águas. Garças em branco-noivo fazem alvura na lama. É o arremedo, naqueles mundos, do começo do mundo... '.

    Este é Oswaldo Lamartine. Épico e lírico. Real e irreal. Verdadeiro e alegórico.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um papo com Lira




O Leitor Bagunçado, personagem de mim mesmo responsável pela coluna ali ao lado de indicações de livros possíveis, convida o leitor da Hamaca a apreciar por uns bons 50 minutos (na primeira parte, há uma segunda também) a conversa entre o jornalista Roberto D’Ávila e o jornalista e escritor Lira Neto, cearense que entrou para a sala vip dos biógrafos brasileiros, depois de labutar nas redações do seu estado e trabalhar como assistente de Fernando Moraes. Lira Neto está inscrito na fila de leituras à espera do Leitor Bagunçado, que ganhou de presente não faz muito tempo o seu “Maysa”, escrito com base nos diários que a própria cantora escreveu dos 15 anos até dias antes de morrer. E tem este novo “Getúlio” acenando das livrarias na fissura por também conseguir um lugar nesta fila.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Dia sete



 
         Cheguei da caminhada habitual, lavei o suor do corpo com um banho e botei uma bermuda verde-oliva. E isso é tudo o que posso fazer em homenagem à presente data, ao contrário das minimultidões que estão no presente momento em que componho essas mal digitadas torrando ao sol sertanejo de Brasília para ver a parada comemorativa da independência passar. Se fosse presidente da República ou comandante do Exército, condecorava cada uma, um por um desses bravos brasileiros, entregando as mais merecidas medalhas ao longo de todos os alambrados que separam os soldadinhos do povão. Para suportar o calor e a claridade que nesta época parecem fazer de Brasília Citi uma espécie de Big Brother Climático, uma grande torradeira envidraçada, merecem medalhas e salvas de tiros de canhão.

     
      Se você colocar nesta lista de obstáculos naturais à comemoração do sete de setembro, além do calor africano e da claridade ofuscante um terceiro – e bem mais rigoroso – elemento climático, a minimultidão passa a merecer não apenas salvas e medalhas, mas alguma coisa como um milionésimo de real do Produto Interno Bruto do ano  de 2011: este último agravante é quase um símbolo da capital do país, tão significativo sobre ela quanto são a rampa do Planalto e os pratos do Congresso – a seca, ela mesma.

    
      Vivemos dias de com umidade do ar entre 16 e 20%; com 191 queimadas devastando o cerrado em volta da cidade só nos primeiros quatro dias de setembro; e com pelo menos mais um mês de estiagem pela frente. Essa semana os incêndios, que costumam ser mais democráticos do que a tradição brasileira, lamberam as beiradas de uma mansão numa área meio rural e meio urbana como é tão típico por aqui, da mesma maneira como esturricaram para todo o sempre um conjunto de barracos de madeirite onde se abrigavam e guardavam os pertences uma comunidade de catadores de lixo, nos fundos do terreno onde fica o Centro Cultural Banco do Brasil. Aí estão mais três símbolos de Brasília: mansões meio urbanas e meio rurais, catadores de lixo e queimadas.

      Agora me responda: dá pra sair às ruas animadamente pra comemorar o sete de setembro, lembrando que arquibancada coberta na Esplanada é requisito de autoridade constituída e munida de senha e crachá? Não, melhor ficar em casa curtindo o outro lado, mais comezinho, da seca brasiliense. Como o quê? Como imaginar que na segunda-feira você poderá encostar o ombro naquele mala sem alça que por acaso é seu colega de trabalho, dando o que parece ser um esbarrão camarada mas que na verdade é um jeito de corpo de alta letalidade. Com as roupas ressecadas como ficam nesta época, o vinco da manga da sua camisa estará tão rígido, mas tão rígido, que é capaz de cortar qualquer ombro amigo no que parece um encontrão acidental ou camarada. É chegar junto e depois se desculpar pelo talho aberto pela manga-punhal. E que ninguém estranhe tanto essa imaginação pra lá de violenta, que ela muito certamente também é, assim como aquela dor de cabeça esquisita e constante e o nariz implorando por uma minibritadeira de quebrar asfalto, um sintoma da nossa querida seca. Agora me providencie um copo d’água, por obséquio.
 
* A foto que ilustra o post é quase uma provocação: o Lago Paranoá, das poucas reservas de umidade de que nos valemos neste período do ano.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cabra Marcado e outros tesouros do nosso cinema



Aí está a reprodução integral de um filme tão grande quanto difícil de encontrar para ver, rever, examinar, estudar, pensar e se emocionar. É o "Cabra marcado pra morrer", o documentário brazuca número 1 de Eduardo Coutinho. Pra os que fazem parte da tribo de Poti, como eu, é um filme que fala particularmente ao pé do ouvido, visto que Elisabete, sua mais que brasileira protagonista, passou anos vivendo clandestinamente na hoje submersa São Rafael, se não me fala a memória - essa matéria tão subjetiva e tão fascinante que é, ao fim e ao cabo, o tema do filme, aplicado a um período histórico brasileiro marcado pela mais pragmática das represssões políticas. O link está aqui, ademais, para lembrar o fixo ou eventual frequentador da Hamaca que a partir de agora há um outro link, este permanente, ali na coluna "Diversão e Arte" ao lado, que leva diretamente ao canal do YouTube que abriga filmes brasileiros completos. Tem muita preciosidade lá que você não encontra em locadora alguma, como vários filmes de Glauber Rocha menos notórios do que os deuses e diabos habituais. Ao filme, bom divertimento e boas incursões por esse nosso mui precário mas também bastante amado audiovisual brasileiro.

domingo, 5 de agosto de 2012

Meschiya Lake and The Little Big Horns




Três videos com gosto de quero-mais pra quem viu o show da banda no festival I Love Jazz, no Parque da Cidade, BSB Citi, final de semana que se vai.

sábado, 4 de agosto de 2012

Caim, caim




Leitor Bagunçado acabou de atravessar as mil e uma perorações humor-ateísticas de “Caim”, um dos últimos Saramagos, onde o portuga bom de letra faz gato, sapato e acessório de couro do deus pré-histório do velho testamento que, ironias atemporais, não poucas vezes tem incomodado com suas persplexidades as modernas mentes humanas atuais. O livro é um chiste de responsa sobre eventos como noés, jericós, sodomas e abraãos, brianizando (“A Vida de Bryan”, o filme) a relação entre o intempestivo deus antigo e o homem de sempre, representado na figura daquele que mata seu irmão e, crivado pelo próprio crime, torna-se prisioneiro das dúvidas e dos questionamentos que maltratam tanto quando uma maldição de 5 mil anos. Trecho: “...é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar”. Dá-pa-tú?


Na onomatopeia romanesca de Saramago, esse caim-caim que ladra contra o deus que o condena a perecer no mundo entre as terras de jó e os domínios do bezerro de ouro, entre outros sítios, é como um lamento humano conjunto dos desvalidos encarnados contra as mãos arbitrárias do criador-primeiro. Primeiro-testamento, que se ressalte. Mas se o deus primevo é essa mistura de quadro de Michelangello com terror de vitalinas, é preciso dizer também que o homem ao seu por e dispor é, embora com a duração imprecisa de caim, um sujeito da idade do sempre. Ou por outra: nós mesmos, microfones de dúvidas que vão do que somos ao que supostamente nos criou. Essa é a matéria, o barro de frases cadenciadas que Saramago tão bem esmaga, com uma habilidade que, diria-se, talvez o mais crente dos escritores não alcance. Bendito ateísmo, o do de além-mar, marido de Pilar, Nobel de nós aqui abaixo, pecadores e ignorantes da verdade histórica, religiosa e não obstante literária. Sobretudo, literária.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Brincando de lembrar













Houve uma vez uma arma das mais letais no sertão: nós a chamávamos de "baliera", porque disparava balas em forma de pedras catadas no chão em velocidade de relâmpago. Em outras terras, como aquelas de onde vinham as revistas em quadrinhos, o nome era mais pomposo: estilingue. Mas só nós dominávamos as manhas nem um pouco verbais desse instrumento infantil de defesa primordial. As balieiras do sertão não quebravam vidraças, pelo simples fato de que não havia esses luxos no nosso grotão. No máximo, quebravam telhas mal colocadas sobre nossas toscas mais acolhedoras casas. Ou reverberavam entre janelas de madeira crua, poucos postes de iluminação pública e a cabeça furada de um ou outro menos felizardo.

No reino das meninas, inocentes caixas de fósforos esvaziadas pelo cozinhar dos almoços atiçavam fogo nas imaginações. E as caixinhas viravam móveis em miniatura. Nos casos de pobreza mais humilde e criatividade infantil mais extrema uns reles sabugo de milho ressecado podia se transformar para todo e qualquer efeito em uma boneca desconcertante, pronta pra se embalar num colo de menina aquecido pela carência material de tudo. Bastava recobrir o sabugo com um trapinho de pano e dava-se o milagre, conforme contam as memórias de gente como dona Maria Izabel, minha sogra.

Mas, brinquedo entre os brinquedos, o meu preferido era uma rodinha de rolimã conseguida não sei bem onde - certamente nas oficinas da vizinhança - e equipada com um bastão de ferro de ponta curva que se usava para guiar o veículo rua acima e rua abaixo. Visitantando com os moderninhos Bernardo e Cecília a exposição permanente de brinquedos antigos - artesanais, pobres e fantásticos, pra não dizer simplesmente divertidos como nenhum boneco de Ben 10 dos dias atuais - na sede do IFRN no centro de Natal, dei de cara com minha antiga diversão. Um instante de alumbramento no tumulto da avenida Rio Branco, daqueles que aspiram o som do trânsito lá fora e instalam a sala da memória pura por dentro.

sábado, 28 de julho de 2012

Filmes para férias



Digamos que o estresse é tanto, mas tanto, que você saiu de férias mas a ficha não caiu: parece que ainda está em casa, ou no trabalho, envolvo em planos, metas, hierarquias e quejandos. É quando, disperso e tonto no quarto de hotel ou no apartamento de temporada, você liga a tevê às duas da manhã e dá de cara com um daqueles filmes que só mesmo nas férias e nesse horário: alguma coisa com cenas da Segunda Guerra, um filme de vampiro como há tempos não se exibe mais, uma comédia em que cada cena parece vir com uma etiqueta de autenticação que diz “made in USA nos anos 50”. Enfim, qualquer coisa com Gary Cooper (quem?), ou com cara de faroeste italiano ou ainda um mimo cinematográfico mais do que adornado por... Sophia Loren. Enfim: filmes como não se fazem mais e como só passam  na tevê de madrugada quando você está desprevenido – quer dizer, de férias.

Isso poderia dar origem a um novo gênero de filmes, ou uma daquelas classificações aleatórias a que se refere Ana Maria Baihana no seu divertido manual “Como ver um filme”, que o leitor bagunçado vem traçando na maciota. Não tem faroeste, drama, comédia, dramédia, cinema-catástrofe etc etc? Então também deveria haver este: filme que detecta que você está de férias. Tudo isso é porque na noite passada – madrugada seria mais apropriado dizer – ligo a tevê ao final do primeiro dia de uma semana de férias e dou de cara com um típico exemplar do gênero. E o melhor é que a emissora que o exibia -  a TV Cultura de São Paulo – é daquele tipo de canal que demora pra informar o nome do filme que está mostrando. De maneira que além de me divertir com um filme que diz que você está de férias ainda tive o prazer de ficar tentando adivinhar qual deles era mesmo. Um ar de filme de  espionagem dos anos 70, uma atmosfera de gente suspeita, uma cenografia européia, pouquíssimos diálogos, performance à John Le Carré... aquilo parecia muito com a transcrição, em cinema, de um daqueles exemplares do Círculo do Livro que a gente lia como quem bebe água depois de atravessar um deserto nos tempos em que o que mais tínhamos nessa vida era tempo. Não matei a charada, enquanto o protagonista matava vários personagens secundários na telinha de 14 polegadas do apê (este tipo de filme, este tipo de situação pedem tevês antigas e pequenas: nada menos filme-de-férias do que LCD de 42” em HD): só quando o canal me informou é que caiu a outra ficha. Era “O dia do Chacal” – e eu só não matei antes porque o titulinho com o nome do filme apareceu bem antes daquela imagem de um alvo de espingarda com o centro de uma cruz de pontaria bem no meio da testa do ator que interpretava o general De Gaulle.

Mas aí tudo já estava consumado como num antigo filme de paixão de Cristo a que a gente assistia na Semana Santa diante de uma enorme tevê em branco e preto comendo bolacha creme-craque com suco de laranja que sobrou do almoço: caiu a ficha do filme e com ela a ficha das férias. Enfim, é como se um departamento do acaso programado tivesse finalmente liberado minha licença pra descer pra praia na manhã seguinte, andar por aí, respirar o ventinho de Natal com o desprendimento que ele pede e proporciona. Sem o filme que lhe avisa que você está de férias, nada disso acontece. E não vale andar com uma bolsinha de DVDs: tem que ser por acaso, na insônia da primeira noite, véspera do deleite garantido pela lei trabalhista. Bom filme e boas férias pra você também.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Antonioni, sujeito e objeto


Entre as sequencias mais intrigantes do cinema, está a que encerra o filme "Blow up", de Michelangelo Antonioni, uma referência tão recorrente quando se fala sobre a forma narrativa que a sétima arte adquiriu quando embalada à européia que dispensa qualquer apresentação. Ocorre que, por mais tomado à mão armada sempre que se precisa responder, na velocidade de um assalto, o que diferencia a cinematografia típica norte-americana daquela feita do outro lado do Atlântico, certos elementos de "Blow up" permanecem abertos à formulação de que assiste ao filme. 

A cena final, do jogo de tênis sem bola, é o momento máximo da expressão dessa impossibilidade onde cabem todas as possibilidades interpretativas. Assim como acontece, para citar outro exemplo igualmente referente, no final de "2001 - Uma odisséia no espaço". Talvez por isso, um e outro estejam entre aqueles filmes a que a gente, volta e meia, acaba se curvando quando está numa locadora de video sem saber exatamente o que procura. Na dúvida, vamos com algo clássico mas intrigante: garantia de qualidade mas também de desconcerto. Algo com que alimentar aquele órgão interno semelhante, de alguma forma, ao orgânico estômago, mas que é de fato a inorgânica inteligência.

Foi o que me aconteceu outro dia: e lá fui eu, assistir em colheradas atentas como quem degusta um prato raro, a cada momentinho do filme a um só tempo pop e conceitual de Antonioni. Sem perseguir exatamente as chaves das charadas que o filme contém, entretido na verdade apenas com a camada até superficial da obsessão do fotógrafo do filme pelas pistas de algo estranho que uma imagem casual capturada por ele pode conter, a gente vai chegando - desde que o olho esteja aberto e desprevenido, pronto para processar precisamente o que o danado do Antonioni oferece parcimoniosamente - ao, eita palavrinha perigosa, cerne da questão. E eis que, quando chega a cena final, a clássica partida de tênis disputada no nível da mímica por um grupo de artistas de rua, faz-se a luz. O bóston de Higgs do filme explode na sua mente e fica tudo muito claro.

Outra pessoa, como o fenômeno da percepção varia tanto quando a variedade da raça (humana, não se precipite), pode chegar a prognóstico bem diferente - e igualmente correto e aplicável. Mas o meu foi este: o tempo todo o "Blow up" de Antonioni está falando sobre a busca de um tipo extramente radical de liberdade. Radical não no sentido perigoso, politicamente extremista, humanamente marginal. Não: no sentido elementar mesmo. Assim: o cara é um fotógrafo famoso, caro, tarimbado, célebre, pop, desejado e admirado. Alguém que por princípio parece poder tudo. Ele é a referência, o tampa de crush, o bam-bam-bam. Ocorre que quando mais alto é o lugar onde ele é colocado, menos liberdade tem: precisa corresponder às expectativas em volta e o resultado dessa exigência é um profundo tédio. Sim, o tédio do filme de Antonioni não é um cacoete audiovisual, uma mania gratuita, um jeito de corpo bacaninha do cinema da época. É, na verdade, um elemento muito essencial à situação do seu personagem.

Em busca da liberdade perdida para a celebridade que não o larga nunca, o fotógrafo sai por aí fotografando ao léu, exercitando seu ofício com a informalidade que a fama veta, não permite. Nisso, captura a imagem que passa a lhe perseguir, com o indício de um crime. O que aconteceu, para além do gancho, vá lá, policial? A liberdade extrema, para ele, é o ato de fotografar sem se preocupar com o objeto - motivo de suas prisões circunstanciais, pois está sempre preso à fotografia de moda, de revista, da estampa da época, do retrato contratual. Ao fotografar como um amador num parque, ele tem a ilusão de que, fugindo do objeto, alcançará uma plenidade livre das circunstâncias. Ledo engano: o que ele capta é algo objetivamente indescartável - um assassinato. 

Resultado da equação: não há como atingir a liberdade total de viver ignorando o objeto (noutras palavras, as circunstâncias). Ele, o objeto, sempre vai arranjar uma maneira de se prender a um sujeito, no caso o fotógrafo. Daí a ilusão final da última cena: um jogo de tênis feito por um grupo de artistas de rua (sujeitos de um exercício artístico que é também uma forma de buscar a suprema e impossível liberdade) sem a existência física da bola (o objeto que "trai" a ocorrência da realidade e suas circunstâncias). Só assim, num ritual inscrito no suporte artístico, o fotógrafo poderia fugir da responsabilidade direta que a ausência de objeto permite. Uma vez que o objeto apareça, a busca daquela liberdade só poder ser feita com o correspondente grau de responsabildade a ela atrelada: o fotógrafo, obcecado, desvendou o crime que sua imagem denunciava - imagem feita numa tentativa de fuga da esterilidade existencial de seu estúdio caro e blasé.

Liberdade e responsabilidade, sujeito e objeto, são esses os pontos cardeais do ensaio narrativo que "Blow up" oferece a quem o assiste. E com que ritmo, abordagem e sensibilidade audiovisual isso é feito, construído, milimetricamente elaborado é outro prazer à disposição de quem, como fiz outro dia, volta e meia retorna ao filme.  

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ouvindo a voz de Deus




Imagino que, diante de Deus em pessoa, nem nós, pecadores vulgares, nem ele, criador supremo, precisem usar a palavra falada para se comunicar. Esse tipo de encontro deve ser uma coisa tão sublime que dispensa formas de comunicação mais ligadas às limitações terrenas. Mas, insisto, caso esse Deus improvável mas por isso mesmo tão presente na vida de todos e cada um precisasse se comunicar com um resto humano como eu e você, então, meu amigo, eu não teria dúvida nenhuma: Deus teria a voz de B.B. King. Aquele timbre negro, aquele farfalhar de aparelho vocal gasto, aquela cor auditiva entre o conforto do marrom e a inquietação do preto, aquele tom de avô mítico, e ao mesmo tempo, pop.


Se “Eric Clapton é Deus”, como se escrevia nos muros de Londres nos anos 60, então B.B. King é a voz com que Deus se permite ser ouvido na terra, embora sem se apresentar assim que é para não vulgarizar sua valorosa presença. Quem se der ao trabalho de ouvir o homem, escutará a pronúncia sofrida deste Deus. Não falo da guitarra célebre, tampouco preciso me deter no colchão sonoro onde a voz se deitar para orar, descansar ou amar, que é o velho blues daquele sul ao norte tão rancorosamente racista. A voz se basta, o esganiçar plangente de corda viva de guitarra humana, vertendo sangue e beleza, dor e êxtase cada vez que canta.


Tudo isso me ocorreu enquanto ouvia, duas vezes seguida, headphones entupidos nas profundezas dos ouvidos, o CD que reúne BB. King e Eric Clapton, que o mundo já deve até ter cansado de ouvir. Pois pra mim, que sempre tropeço atrasado numa revelação banal de esquina, foi como ouvir a primeira missa, celebrada pelo próprio deus King com seu sacristão Clapton. Ouvi aqui em Acari, RN, onde estou desde quarta-feira, sempre na sala da casa da minha cunhada Sandra, que é uma espécie de varanda aberta para a rua. Nas janelas, passa o tempo todo um filme sem diretor, com a participação especialíssima dos populares que sobem e descem a rua da Matriz. Fachadas com ecos da década de 30, caminhões que cortam a BR-226, muito chapéu como os que usava meu pai, a edição vai se compondo desses elementos. Agora imagine tudo isso com B.B. King e Clapton tocando blues no seu ouvido.


Não foi nada planejado, eu apenas comprei o CD porque finalmente o encontrei naquelas promoções das lojas Americanas (eu tenho muitos compromissos, meu amigo, não posso empregar o meu dinheiro com os discos que muito me interessam), botei na mala de “supérfluos” que sempre trago a cada viagem e, aqui, finalmente resolvi ouvir. E encontrei a trilha sonora perfeita para o cenário desta cidade: uma música que vem de outro interior habitado a duras penas e colonizado a ferro e fogo, com todas as chagas que essa ocupação produz, e todas as musicalidades que essas coisas são capazes de provocar.


É por isso que, no Mississipi ou no Seridó, com um pouco de esforço dá sim pra ouvir a voz de Deus. Se você não tiver à mão um B.B.King para ouvir, experimente um Luiz Gonzaga que a epifania muito provavelmente será a mesma.


* Repeteco de um post publicado originalmente em agosto de 2009 quando, como diz o relato, estávamos em Acari-RN numa temporada de férias. O espírito do tempo permanece, o que valida o replay.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cinema em casa



"Um Conto Chinês", a última pequena sensação argentina, já está disponível nas prateleiras das Americanas pra quem, como eu, não conseguiu ver o filme no cinema. Um filme cotidiano, singelo e redondo do tipo a-cobra-morde-o-rabo. Pouco mais que o "conto" do título, parece mais uma novela (literária) filmada.



Havia esquecido o potencial de horror humano desse legítimo Milos Forman. Fui rever esperando a anarquia contestatória do personagem de Jack Nicholson, lembrando do prazer provocativo que é ler Ken Kesey (de quem recomendo "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", um livraço sobre a geração Woodstock), autor do livro que deu base ao filme e, tome surpresa. Não lembrava e nem esperava a elevada voltagem trágica do filme. E mais não digo porque o leitor pode muito bem também ter esquecido: veja de novo bem longe das tomadas elétricas.


Aí bate aquela vontade de apreciar um melodrama e você esbarra nas prateleiras da livraria Cultura com este "Eu Quero Viver", com Susan Hayward pagando por todos os pecados da humanidade - sobretudo aqueles atribuídos à parte feminina desse povo que habita o planeta - no aconchego da câmara de gás. E ela paga mesmo, um por um, luxúria, desobediência, rebeldia, atrevimento, participação em assaltos, golpes, cada um dos pecadões e pecadilhos deste mundo. Morre elegantemente vestida na poltrona em que lhe são servidas generosas porções de gás letal. Mas um pecado - só um - ela não cometeu, o de matar alguém. E é justamente esta a acusação (formal) que a leva ao fim. Um filme que é muito mais sobre hipocrisia social do que sobre a pena de morte. Destaque para o diálogo em que a anti-heroína diz, às vésperas da execução, que enfim encontrará a única pessoa que confia na sua inocência. A pessoa com quem ela conversa pensa que se trata de Deus. Ela corrige, dizendo o nome da mulher a quem ela supostamente assassinou.  Atenção para outro "detalhe": a direção, de Robert Wise ("Amor, Sublime Amor").

terça-feira, 8 de maio de 2012

Vidas Secas










Acabei de assistir pela primeira vez, entre impressionado e comovido, ao clássico do cinema brasileiro “Vidas Secas” no link do YouTube. Um filme de fotografia muito mais que poética de tão expressiva (feita, salvo engano, por Luiz Carlos Barreto), econômico como a prosa do livro que o gerou, gráfico e ao mesmo tempo sensível à realidade que projeta, a da nossa ascendência comum de nordestinos fadados a enfrentar essa sentença climática passada, a da seca, que aqui e ali volta a assaltar o presente, como acontece agora mesmo neste 2012.

Um filme quase mítico de tão realista, encorpado pela luz estourada do sertão e pela música rangente das rodas do carro de boi. Com um Nordeste que, por mais açoitado pela miséria e pela desigualdade, nunca perde a altivez interna do subjugado. Com um Fabiano cheio de dignidade ainda que debaixo da chibata ancestral da polícia e uma Sinhá Vitória plena de soberana humanidade na sua  luta para se distinguir dos bichos. Um filme onde até os bichos impõem respeito, da cachorra Baleia aos preás que ela está sempre a caçar.

Um filme que me lembrou a figura do meu pai, que se bastava na sua presença de sertanejo sem precisar fazer qualquer discurso diante de quem lhe foi posto na vida em posição superior. Que me lembrou também meus tios, no desengonçar de suas passagens por esta vida como suficientes pastores cada um de seus rebanhos familiares. Um filme que me lembrou a sombra protetora do meu avô materno e a presença sempre tão remota e temerosa do meu vicentino avô paterno. Como se todos tivessem se sentado à mesma mesa de madeira crua comigo para essa janta cinematográfica de filme de formação.

Meu pai, meus avós, meus tios, Vidas Plenas de generosidade e consciência do que são e representam, Vidas Cheias de senso nordestino de resistência, coragem e disposição sob o mais rigoroso sol do tempo.


*E imaginar como terá sido uma plateia de burgueses franceses assistindo a tudo isso no Palácio dos Festivais em Cannes, 1964, é algo que dá muito o que pensar.

domingo, 6 de maio de 2012

Domigão no Jardim Botânico

O inverno brasiliense azuleja o céu e ameniza a temperatura: isso é quase uma convocação obritagória pra gente passar uma manhã e tarde de domingo entre as plantas e alamedas do Jardim Botânico de Brasília, ver o orquidário, oferecer o parquinho infantil pra criançada, improvisar um piquenique, brincar no teatro de arena e aproveitar outras atrações que o lugar, este ano ainda bem verde nesta época, oferere. Pra quem não está inteirado, é só pegar o rumo do Lago Sul e lá, seguindo as placas, o caminho da Esaf (fica antes da escola fazendária). O ingresso custa R$ 2,00 e só adultos pagam. Importante: o local não dispõe de lanchenete ou qualquer estabelecimento do gênero. Só vá se gostar - mesmo - de natureza, sossego, verde e de reparar nos detalhes que fazem diferentes as mais parecidas espécies de plantas. Com Rejane ocupada num curso que entra pelo final de semana, fomos eu, Bernardo, Cecília e a fiel escudeira Ivone. Aprecie com a gente. CLIQUE NAS FOTOS PARA VÊ-LAS AMPLIADAS NUM ÁLBUM À PARTE, EM VISUALIZAÇÃO BEM MELHOR.















quarta-feira, 18 de abril de 2012

O vício maldito



Alastra-se entre os filhos de amigos e colegas uma praga chamada leitura. No tuíte, no facebook, nos e-mails, no bate papo, no almoço dominical, nos corações e nas mentes é cada vez maior a quantidade de pais e mães trocando confidências entre si e pedindo dicas mútuas para conseguir deter este mau hábito que os filhos – em alguns casos, netos, o que é bem pior – insistem em cultivar. Entre os pais, o temor maior é quanto ao exemplo: de nada adianta eles apenas dizerem aos filhos, burocraticamente e como ordenam os mandamentos de certa pedagogia tipo da boca pra fora, que ler é importante; o problema é que os pequenos, despreparados para  vida adulta, acreditam e caem, de fato, na vala dos livros.


Alguém precisa chamar a atenção para a escalada dessa doença social, que começa cedo e se estabelece sob o nariz da sociedade consumista. Ainda pequenas, mal foram alfabetizadas, meninos e meninas descobrem, expostos nas bancas e livrarias como se fosse a coisa mais natural do mundo, revistas em quadrinhos atrativas, coloridas, instigantes. Os fabricantes desse péssimo material didático poderiam ao menos fazer umas publicações mais opacas, sem tantos chamativos, de maneira que a criança indefesa diante do monstro da leitura tivesse ao menos a chance de não prestar tanta atenção. Depois aparecem aqueles livros que geram outros livros, histórias em séries como esse Harry Porter – verdadeiros traficantes desse mal disfarçados de bruxinhos do bem. Isso já deveria ter sido proibido, até porque não é de hoje: o Harry Porter milionário de agora já foi “Os Seis” de uma antiga série das Edições de Ouro de antigamente, pra ficar apenas num exemplo (também tinha Beto Brasa, Xereta; um nefasto “Para Gostar de Ler” que era apologia pura). Ninguém fez nada e aí está: novas gerações, uma após a outra, incorrendo no mesmo erro – ler como viciados.

Examinando detidamente o problema, psicólogos e especialistas já estão chegando às primeiras e acachapantes conclusões: o problema maior, dizem os tampas do assunto, é com os pais que, embora digam aos filhos em tom monótono que eles precisam ler só um pouquinho – o bastante pra passar no fim do ano ou conseguir uma aprovação no PAS – na verdade, e sem perceber, dão o exemplo contrário: leem como lobos vorazes devorando verdadeiros tijolos em forma de biografias, ensaios, novos romances e, cruz-credo, até a tal da poesia – que, dizem, em alguns casos vicia instantaneamente. Só pra concluir o parênteses da poesia, já se fala em certos círculos que nos século XIX essa praga, associada à tuberculose, ceifou a vida de cérebros que, não tivessem tido contato com ela, poderia ter inventado coisas muito úteis como o forno de microondas, por exemplo. Um desperdício. 

Então: o importante é não dar o exemplo; porque a criança, tadinha, não faz o que você manda – ela copia o que você faz. Se você é um pai ou uma mãe do tipo incorrigível – aqueles cuja dependência de livros não acaba nem frequentando o leitores anônimos – então vê se pelo menos lê escondido. Na frente dos filhos, meu caro, minha cara, já é demais.  E se for flagrado trancado no banheiro com alguma droga pesada tipo um tal de “Grande Sertão: Veredas” finja que está arrancando as páginas pra usar como papel  higiênico, tá? Se os meninos não tiverem sido ainda totalmente contaminados pelo mal da leitura, eles ainda podem acreditar.

domingo, 25 de março de 2012

Domingo com Gil e Ben





O domingo foi de Gilberto Gil, o sextagenário homem de ideias, notas musicais e nosso guitarrista-mor da MPB sem medo de ser terceira idade. O ministro de Lula deu um show aqui em casa, graças ao DVD Banda Dois, que encontrei nas prateleiras promocionais de um supermercado: biscoito fino a preço de ocasião. Um espetáculo em família, com Gil, meu filósofo musical preferido - devo ser a única pessoa do mundo que aprecia aqueles raciocínios zen-barrocos que ele elabora e meio mundo se nega a compreender - tocando com os filhos. Ben Gil é o acompanhante quase constante do show que prima pela economia tanto quanto pela elegância - e se esses dois atributos contribuem um com o outro, como se sabe, você há de imaginar do que estou falando. Gil também toca com José Gil, outro de seus rebentos literais. E ainda recebe, como numa confraria de filiações da grande família emepebê, a filha de Elis Regina numa aparição em que Maria Rita evoca, mais do que em qualquer outro momento, a figura da mãe. Ela está lá no penteado, na expressão do rosto, na cerimônia do figurino e naturalmente na maneira de cantar. Está, sobretudo, no que ela canta com Gil, recuperando uma das gravações que Elis fez do músico baiano - "Amor até o fim".

 

A direção de Andrucha Waddington confere um distanciamento cênico na iluminação que faz Gil e filhos refletirem como jóias raras que são, mas o tom de bate papo entre as canções - que, por sua vez, se bastam com banquinho e violão - adiciona pitadas de intimidade, bem daquelas do tipo que o público gosta de saborear como quem degusta minipratos de culinária caprichosa. É assim que Gil conta as circunstâncias em que escreveu e musicou "A linha e o linho", num show em cujo repertório ainda cabem preciosidades que ele raramente revisita, como "Metáfora" (onde brilha o filósofo informal que fora da música é motivo de piada cínica), a baianosa "Babá Alapalá" (do disco Revafela) e, estranhamente soando como a melhor entre as melhores, a ritmada "Banda Um", que ele não cantava desde a época dos shows do lançamento do disco homônimo e que neste DVD, naturalmente, guarda uma simetria com o título de Banda Dois com que Gil vestiu substantivamente sua apresentação com o filho Ben. E digo mais: não é apenas um cover violado da "Banda Um" que a gente conhece dos anos 80, mas uma reconstrução que insere lentidão nos breques originais daquele afoxé pop de antanho. Ficou muito boa, garanto. Tudo o que a gente cantava em golfadas de respiração marcadas ao ritmo do pezinho batendo no chão agora voltou com uma vibração alongada de cordas de violão maturado, plangendo no que é possível a aceleração da primeira "Banda Um".

 

E quando você acha que o show acabou e só lhe resta o playback de uma das faixas sobre os créditos, cai-lhe o queixo sobre a sombra dos ouvidos: pois enquanto a ficha técnica sobe, você desliza a poder da sensibilidade auditiva nas ondas calmas de uma outra recriação, desde vez de uma daquelas músicas que, de tão regravadas, pareciam ter se trancado no quarto onde está escrito a tabuleta na porta: esgotada. Qual nada: Gil canta e recanta "A paz", que fez com João Donato numa madrugada caminhando à beira mar do Leblon com o parceiro, como quem reza a um deus desconhecido. A interpretação é de uma tranquilidade profunda, de uma plasticidade rarefeita, dona daquela capacidade que têm as coisas sagradas de fazer tudo parar no ar. Gil canta "A paz" como cantaria "Se eu quiser falar com Deus". Os créditos sobem e o chão cede. No final, ele ainda tricoteia variações vocais e sonoras sem nunca deixar que a superfície calma do mar dessa canção se permita agitar o bastante para fazer oscilar a canoa desse canto. E qualquer metáfora marinha será pouco para descrever a força leve dessa recriação. "Banda Dois" ainda tem um mimo para os violonistas: o baiano ensina num longo video como tocar algumas das faixas apresentadas. O ministro não perdeu os dons, ao contrário, está melhor do que nunca. E olhe que esse show já tem um tempinho, é como uma pausa para respirar o velho ar musical que Gil teria feito após aspirar os ares da Esplanada dos Ministérios por tantos meses. Depois deles, só depois, veio o "Fé na festa" que ainda se sacode na prateleira dos lançamentos. Mas como é boa a pausa "Banda Dois" que lhe antecede, com pai e filhos recolocando na estrada e sob a luz de um palco a história do músico que faz parte da nossa história.

sexta-feira, 16 de março de 2012

João, Manoel e Mia



Se houvesse um casamento literário entre o romancista João Guimarães Rosa e o poeta Manoel de Barros, se a lua de mel resultante se passasse na África, e se do “casal” de prosa e verso nascesse, nove meses depois, um filho, este bem poderia ter o nome de Mia. Mia Couto, o escritor de Moçambique festejado por leitores atualizadíssimos como o que de melhor existe nas letras atuais mas que este Leitor Bagunçado que vos fala, como sempre, descobre com o atraso regulamentar – e, como que para compensar, com prazer inesperado. Leio, com a mente envolva numa bruma que mistura os campos das Geraes com a umidade do Pantanal, os contos de Mia Couto reunidos em “Estórias abensonhadas”, uma seleta de causos esparsos onde o escritor dedilha neologismos e massageia palavras ao criar expressões que trazem à tona uma aquarela africana de colorido rarefeito, salpicada com os tons dos nossos dois autores que podiam muito bem tê-lo trazido ao mundo, na imagem literária de que me vali. Justo, aquele casamento de culturas e escrituras que apela na tentativa de explicar, sem recorrer ao pano de fundo necessariamente histórico de seu Moçambique, quem é Mia Couto para os que, como eu, são distraídos ao ponto de nunca terem lido o rapaz.

Nestas “Estórias abensonhadas”, a gente vai tomando contando com uma gente africana que muito lembra os caboclos mais matreirinhos das brenhas de Guimarães, e com meninos, moços e mulheres muito semelhantes àquela população brasileiríssima que habita os versos de Manoel de Barros, estes também acomodados numa bela e delicada edição de “Poemas reunidos” que o Leitor Bagunçado traçou meio bêbado de levitações no ano passado. Ler Mia Couto – ao menos o deste “Estórias abensonhadas”, que dos outros ainda não posso falar – é como reencontrar essas figuras, aquelas  paisagens e que-tais sentimentos brasileiros transplantados para a paisagem irmã dos poentes africanos, numa prosa versejada que quase o tempo todo lhe tira os pés do chão tamanha é a força gráfica das imagens empregadas pelo escritor moçambicano.

Exemplos: aqui e ali você depara com alguém “incrédulo como o sapo que comeu a cobra”. Esbarra em figuras como Felizbento, aquele que de tão calado “deu uma segunda demão no silêncio”. Noutra páginas, Mia Couto lhe apresenta aquela “infância que só na velhice se encontra”. Para leitores em crise matrimonial, eis o que diz o contista: “Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrava o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerrames. O amor, afinal, que utilidade tem?” Quer mais? Um instantâneo que parece uma fotografia: “A janela: onde a casa sonha ser mundo”.

Mia Couto faz assim: joga na página, logo nos primeiros parágrafos de cada conto, um alguém africano com cheiro de brasileiro enrodilhado em determinada encrenca, desejo, dilema, arapuca narrativa (e é aqui que a trajetória do país se infiltra na matéria dessa literatura, de uma maneira que mesmo sem maior conhecimento de causa o leitor obtém, nem que seja por uma espécie de fricção gráfica, a sensação possível das vivências de Moçambique ). E dá-lhe tirar, nos parágrafos seguintes, serragens desta pessoa e desta situação, do que resulta aos pés de cada página um monte imaginário de poesia em pó, uma poeira de palavras capaz de inebriar o mais duro leitor.

Talvez por isso, as 154 páginas durem tanto nas mãos de quem as atravessa: parecem poucas, mas é como se a gente estivesse preso a um tijolo de James Joyce, um segura-porta de Dostoievski. Justamente porque, quando mais ligeiro parece nas suas manchas de textos de letras grandes e encadernação fininha a mal se pôr de pé, mais tempo esse “Estórias abensonhadas” exige do leitor: é tanta emoção e sugestão compactada em parcas mas preciosas palavras que o leitor lê e para, para e lê – sem as pausas, estaria desperdiçando o sumo das gotas oferecidas nesse veio literário. E nem dá pra botar a culpa da lentidão – que decorre do ritmo interno do texto que o bom leitor saberá respeitar e respirar – no uso de termos próprios de Moçambique, não menos poéticos e reunidos brevemente numa página final em formato de vocabulário para o português de cá.

Dito isso, resta fazer como um personagem de passagem por um dos contos de “Estórias abensonhadas”. Baixar a sugestão, em forma de decreto disfarçado: corra pra livraria e deguste você também. Ou como diz o tal personagem na página 48:

 “Não ouviu a ordem? Agora, implementa.”

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Muitos filmes em um só



Quando tudo parece que já foi filmado de trás pra frente e pelo avesso, o hibridismo audio-visual é a lei. A lei que se insinua por trás dos fotogramas digitais deste "Millennium - Os Homens que Nâo Amavam as Mulheres", a série para cinema lançada com o propósito de fisgar o público bisavô de Herry Porter. Hibridismo é isso: referências jorrando do vulcão de imagens em atividade na tela. Hibridismo é você se livrar das complicações do enredo e se deixar levar pelo clima, o que "Millennium" tem de sobra. É daí que vem aquela sensação de estar vendo um remake para tela grande daquele grande sucesso para tela pequena do final dos anos 80, o "Twin Peaks" de... David Lynch. Você tira o Kyle MacLachlan bom moço do protagonismo e intala no centro da dramaturgia uma punk pau-pra-toda-obra e tchan: a grade sacada é refazer, recombinar, hibridizar. Não é que seja ruim - oh, é ótimo até o último segundo - mas que fica difícil não assistir sem tentar espanar mentalmente as citações de cada personagem, situação, cena. Na verdade, esse hibridismo dá até um gostinho a mais.

Quer ver? Tente, caso você tenha por volta dos 40 e costume ir ao cinema desde pelo menos os 10, assistir ao filme de David Fincher sem cair na tentação de se perguntar: e se o outro David, aquele mesmo, o Lynch, que também fez coisas tão climáticas quanto "Veludo Azul" e "Cidade dos Sonhos" pegasse um filme desses pra fazer? O que danado ia sair? Hibridismo hipotético. Na vastidão mercadológica do livro-entretenimento que diverte mesmo - não é ironia, isso aqui - tente não fazer um paralelo entre a hacker-punk do filme com o assassino meio Blade Hunner atrasado e teleguiado do "Código Da Vinci". Experimente, mais que tudo, deixar de ver no Daniel Craig as sombras glamurosas do neo James Bond, o ex-punhos de renda e atual punhos de MMA propriamente ditos. Tudo bem que o ator - aquele mesmo que já se mostrava seguro como o filho mau do mafioso mais mau ainda em "Estrada para Perdição" - não apresenta dificulades em distinguir o jornalista do ex-agente secreto - aliás, a cena em que o brutamontes se degela de medo deve ter sido a que ele mais gostou de fazer, pela possibilidade de diferença que oferece e que os atores tanto apreciam. Mas as caras cinematográficas super-expostas são como os protagonistas da Globo: recorrentes e saturadas demais para você se ver completamente livre da encarnação anterior da figura. Hibridismo facial é isso aí.

Há mais hibridismo ao longo de "Millennium" - é um após o outro: quando você acha que a face demoníaca de Stellan Skarsgard, o nórdico com cara de decente mas sem qualquer caráter, não serve mais para nenhum personagem assumidamente nefasto, eis que ele surge de novo. Com o mesmo olhar de "o médico e o monstro" que você já viu em "O Gênio Indomável" e vários e vários e vários outros momentos na penumbra do cinema. Hibridismo de sina dramática. E o mais incrível: funciona, agora numa performance que parece definir como faria um caneta tinteiro o que antes, diante deste filme, parecia só um esboço. Vai ser mau assim num filme de Zé do Caixão! Derradeiro hibridismo no post e no filme: Charles Chaplin. Porque chapliniana é a cena final, em que a pós-punk que quando anda na rua parece mais um carrilhão de igreja medieval - os blin-blins de todos aqueles piercerings são o guizo que ela deveria evitar enquanto se faz de invisível à frente de um notebook - assume seu lado Carlitos. Nada que Renato Aragão não tenha feito à exaustão - e sempre agradando, claro: Rooney Mara, depois de salvar a investigação e a pele de seu herói Craig - e de lhe proporcionar outros benefícios mais - vê-se preterida pela Cinderela loura da redação (Millennium é o nome da revista em que trabalha o jornalista Bond, digo Clark, ou melhor, Craig). Só faltou David Fincher encerrar o filme com a garota androginada sumindo na estrada, hidridizando de uma vez por todas o primeiro episódio de uma série  que diverte e faz lembrar de outros hits do cinema pop. Bacaninha e climatizado, no outro sentido da palavra.

Postagem em destaque

O último cajueiro de Alex Nascimento

Começar o ano lendo um Alex Nascimento, justamente chamado "Um beijo e tchau". Isso é bom; isso é ruim? Isso é o que é - e tcha...