quarta-feira, 14 de março de 2018

CANETTI




“No final de janeiro, Hitler chegara ao poder. Daquele momento em diante, cada acontecimento que se seguiu parecia sinistro, de um significado sombrio. Tudo me dizia respeito muito de perto, senti-me envolvido em tudo o que se passava, como se tivesse estado presente a cada uma das cenas de que tinha notícia. Nada fora previsto. Explicações, ponderações, mesmo ousadas profecias eram nada, se comparadas à realidade. O que ocorreu foi, em cada detalhe, algo inesperado e novo. O contraste entre a pequenez das ideias propulsoras e seu efeito era incompreensível. Em meio a tanta perplexidade, porém, uma coisa era certa: aquilo só poderia desembocar numa guerra – e não numa guerra acanhada, insegura de si própria, mas numa que irromperia orgulhosa e voraz, como as guerras bíblicas dos assírios.”

Elias Canetti, “o Jogo dos Olhos”

domingo, 11 de março de 2018

A PRAIA OU A CRÔNICA*




Todo fim de ano por aqui ou no Facebook ou no Twitter eu faço meu apelo desesperado: gente, vamos largar tudo e correr pra praia. Nada com um bom banho de sol e de mar pra todo mundo esfriar a cabeça. Isso já tem uns três anos – porque é desse tempo pra cá que o país resolveu não perder nenhuma oportunidade para que todos, em cada local de trabalho, na rua, na escola, na igreja ou na rede social, trucidem-se mutuamente. A arma usada é uma intolerância calibre 38. A munição quem quiser pega à vontade num arsenal chamado Ignorância S.A. que tem lucrado um bocado, com uma clientela fixa.

Hoje eu vou variar: se não dá pra ir à praia, porque você é uma mistura de jornalista com servidor público que trabalha e portanto mora em Brasília, a uns mil quilômetros por baixo da praia mais próxima, não se aflija. Como diria a filha do grande filósofo Gilberto Gil (já simplificando midiaticamente tudo o que o pai, coitado, levou décadas para construir) você pode substituir a praia por...crônicas.

Porque, pense bem, analise à sua volta, indague às costuras da sua roupa (os botões já falaram demais, perderam a originalidade, convenhamos): quem neste Brasil em guerra ainda faz uma pausa no seu dia para ler uma crônica? Os jornais até que publicam – mas a pergunta volta: quem neste Brasil metido em disputas suicidas ainda interrompe uma boa briga nos comentários de um site tipo porcaria para ler um jornal? Suprimindo ainda mais a situação pra chegar ao caroço incômodo da questão: quem ainda lê?

Se não lê nada, que dirá crônicas, esse gênero que parece datado de outros tempos, onde havia outro tipo de sensibilidade, em que se cultivava outra forma de apreciação da vida, em épocas nas quais o tempo parecia transcorrer com outra velocidade? Lembro com saudade o tempo que livros de crônicas enchiam as listas dos mais vendidos nos jornais e revistas – ora era um Luiz Fernando Verissimo com as delícias de figuras como o Analista de Bagé, ora a carioquice malandro-literária do tijucano Carlos Eduardo Novaes. Até hoje, se por acaso o seu filho adolescente manifestar alguma curiosidade sobre os tempos em que o Brasil sofria com uma inflação galopante, na década de 80, não dê pra ele nenhum manual de economia – ofereça as crônicas de Novaes que contêm a alma daquele período. Nem preciso lembrar da época em que, a cada final de ano, além do LP e do especial de tevê de Roberto Carlos, todo mundo ficava ansioso pelo lançamento do novo livro – de crônicas, quase sempre – de Fernando Sabino.

Se o amigo chegou até aqui, sabe que vou deixar uma dica matadora que explica por quais motivos eu fui me lembrar dos efeitos benéficos da crônica para quem deseja suportar as agruras maléficas do Brasil atual: o mais recente livro de Clotilde Tavares, “Notícias da existência do mundo”, que acabo de prazerosamente atravessar como quem passeia por uma avenida cheia de prédios bonitos, ruas acolhedoras, jardins cheirosos, livrarias convidativas e outros elementos urbanos que as crônicas da autora sempre evocam.


Enciclopédica como sempre, divertida como só ela sabe ser, estimulante como de hábito, lá está Clotilde nos dando notícias de várias manifestações desse mundo – de um curiosíssimo texto sobre as falas dos bichos até suas aventuras e desventuras com dois dos personagens mais presentes nas crônicas, os gatos e os “cereshumanos”, passando por uma muito peculiar figura chamada “Madrinhadal”. Nem vou dizer o quê ou quem é. Se o amigo quiser, bata lá na porta de Clotilde como eu fiz – ou mande e-mail – e adquira esse “Notícias da Existência do Mundo”. Que, de tão bom, quando acabou me abriu o apetite pra mais e mais crônicas. Lembrei a tempo que tenho uma seleta aqui de Rubem Braga na estante e me refestelei, continuo a me refestelar, enquanto o Brasil lá fora segue se bestializando.

*O título desse texto-projeto-de-crônica é uma humilde citação de “A bolsa ou a vida”, crônica de Carlos Drummond de Andrade que li num livro didático de “linguagem” quando estava ali pela sexta série do ensino básico. Bons tempos aqueles em que se começava a ler crônicas na escola pública logo cedo. Espero que continue assim.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Churchill, Oldman and Lithgow





Quem é o melhor Winston Churchill, o de Gary Oldman, que está agora em cartaz nos cinemas (“O destino de uma nação”), ou o de John Lithgow, que está em cartaz na Netflix, na série The Crown? Compare e veja – dificilmente o amigo terá do que reclamar. São dois Churchills tão verdadeiros – o de Gary mais, como diria, “sebosão” e por vezes inseguro;  o de Lithgow, mais firme e formal, – que você nem vai sentir falta do original.

Em tempos de Trumps and Temers, não é demais relembrar grandes líderes, gente contraditória como todos, mas que, por uma vocação de pensar bem e sofrer faíscas cerebrais de intuição essencial, estavam nos lugares certos quanto o mundo vivia os momentos mais errados. O drama político brasileiro, com um país correndo o risco de ser entregue aos mais aventureiros e irresponsáveis carreiristas por ter se esquecido de forjar novos protagonistas – ou de fortalecer os poucos que surgiram, ao invés de sufocá-los – é um cenário perfeito para se medir a necessária estatura desses condutores da massa humana.

O amigo bem pode dizer que, ante o pavor de Hitler, o império britânico também tinha suas carradas de culpa a purgar, e ver no pânico de Londres frente ao avanço dos alemães da Bélgica à França – que é o momento histórico em que o filme se concentra - um reflexo distorcido mas impossível de ignorar de massacres outros, à sombra do colonialismo que também espalhou tanto mal ao longo da história. Mas esse ajuste conceitual só reforça a necessidade de uma liderança balofa, às vezes imperial, outras tantas confusa, mas no essencial acertada do personagem que Oldman e Lithgow trazem de volta, cada qual à sua maneira. Enquanto as eleições brasileiras não chegam, o amigo vá se divertindo no cinema.



domingo, 7 de maio de 2017

Minha noite com Antonioni


Um dos maiores testes de resistência para o ser humano deve ser enfrentar uma crise de pigarro durante uma sessão de um filme de Michelangelo Antonioni. Principalmente se a garganta começar a coçar quando você estiver vendo "A Noite" na salinha de cinema do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília. São no máximo 50 lugares, normalmente com a metade ocupada. Ninguém tosse durante o filme, ninguém mexe no cabelo, pessoa alguma se atreve sequer a respirar. É um filme de Antonioni. A tensão suspende tudo - até o pigarro. 

Não foi isso o que aconteceu comigo na tarde desse domingo. Mas poderia. De fato, eu fui ao CCBB para ver, em tela de cinema, exibido a partir de uma película em cópia francesa, um dos clássicos filmes do cineasta italiano - que forma com "A Aventura" e "O Eclipse" uma espécie de trilogia da angústia e do silêncio. Não tive pigarro, mas só imaginar que poderia ter tido já foi o bastante. Pense num pavor. Você pigarreia e a sala inteira se volta pra você com aquele olhar de reprovação. Todos com cara de inteligentes - é impossível estar diante de um Antonioni de boa cepa sem pelo menos parecer superdotado intelectualmente. Seria um daqueles constrangimentos que a gente leva para o túmulo.

É claro que há uma boa dose de exagero no que estou dizendo aqui. O cinema de Antonioni é apenas e sobretudo uma linguagem a mais na vasta matéria cinematográfica que nos beneficia a imaginação, a reflexão e o deleite puro e simples. É cinema necessário - mesmo que, diante de "A Noite" na telona eu tenha sentido certa saudade de outro Antonioni menos, digamos, apegado, "Passageiro Profissão : Repórter". Mas é preciso também reconhecer que o cara torce a corda até o limite máximo de paciência narrativa que o espectador consegue suportar. Não existem elipses nos filmes de Antonioni: a câmera filma tudo. Se o personagem soterrado pelo tédio sai do carro, passa pela calçada, atravessa a recepção e espera o elevador do prédio chegar, Antonioni mostra tudo. Não é à toa que a sua sequencia mais famosa mostra a câmera atravessando lentamente uma janela - o melhor momento daquele "Passageiro" citado há pouco. O fato é que os filmes distendem ao máximo a atenção de quem está na plateia.  

E nesse domingo eu me senti distendido até não mais poder. Nunca se viu uma gente tão angustiada no cinema quanto nos filmes de Antonioni. "A Noite", em muitos momentos, lembra muito - e não apenas por contar com Marcelo Mastroianni - o Fellini de "A Doce Vida". Também temos uma festa onde vale tudo, também temos um grupo de burgueses entediados, também temos a morte de um amigo. Fiquei até imaginando porque Antonioni botou no filme tantos elementos em comum com o do colega - ao mesmo tempo em que não me decidia sobre quem filmou primeiro e, portanto, quem poderia ter copiado quem. Deixemos o suposto plágio pra lá - era tudo resultado do espírito da época. Até porque Buñuel partiu do mesmo ponto pra fazer "O Anjo Exterminador" - com resultados bem melhores, diga-se. 

Mas ver "A Noite" pela primeira vez num cinema de verdade - a sala tem poucos lugares, mas efetivamente é um cinema - afinal serviu também pra lembrar o quanto nossos burgueses mudaram da década de 60 pra cá. No caso dos brasileiros, então, nem se fala. Pra onde foi aquela angústia ancestral, literária, cool e charmosa que em Ipanema, como já lembrou Ruy Castro nos seus livros sobre o bairro, chamavam de "fossa"? Hoje em dia, o burguês padrão da grande zona sul do Brasil não sabe mais sentir uma boa angústia - tudo o que faz de marcante é no máximo protestar contra o PT. Isso pra mim é de uma regressão sem tamanho. Sem falar que angústia boa, desses que rendem filmes de Fellini, Antonioni ou Buñuel, podiam até soar tediosos, mas tinham no elenco belos rostos como os de Matroianni, Jeanne Moreau e - ah, que linda angústia...! - Monica Vitti. 
O mundo, definitivamente, já foi melhor - até quando a angústia era, por incrível que pareça, maior. 



*Além de "A Noite", o CCBB-Brasília está exibindo "A Aventura", "Deserto Vermelho" e outros filmes numa mostra de M. Antonioni. Veja aqui a programação.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Crônicas da Perplexidade



Mais do que da histórica revolução, Memórias do Subdesenvolvimento trata da perplexidade. O clássico do cinema cubano que ganhei da amiga Nina Rodrigues bem pode ser mais que um presente pessoal pra mim, tornando-se, pra quem conseguir uma cópia*, uma dádiva pra organizar melhor nas ideias o que é este Brasil atual que parece estar terminando um processo sem que tenha iniciado outro. É precisamente deste vácuo que trata o filme, jogando suas fichas num dos momentos mais dramáticos da história do nosso ocidente conturbado. 

O ano é 1961 e as primeiras imagens sugerem que você está diante de um legítimo Glauber Rocha. Normal: é a estética do espírito da época que desce seus lençóis sobre a arte em geral. Daqui a pouco, algo muda e o espectador já associa o filme a uma outra tendência do cinema daqueles tempos: quando o personagem central, que vai amalgamar toda as dúvidas, tanto pessoais quanto sociais e históricas, surge em cena, você pensa estar diante de Walmor Chagas no São Paulo S.A. de Luiz Sérgio Person. E não demora muito para as impressões do clássico paulista de Person dar lugar a algo como um daqueles deliciosos filmes de Domingos de Oliveira do mesmo período. Essas três tendências permanecem ao longo do filme, mas logo você vai perceber que, colando tudo e dando harmonia a um painel tão rico quanto aparentemente caótico, há aqui um cinema semidocumental um pouco neosurrealista com atraso - mas válido, porque o momento histórico é tão grave quanto aquele posterior à II Guerra que gerou o movimento italiano.

Memórias do Subdesenvolvimento embaralha peças de um mosaico das dúvidas, contradições, percalços no caminho de um país que teve a ousadia de realizar uma das revoluções mais improváveis da história ao mesmo tempo em que não sabe bem qual o rumo a seguir dali por diante, justo num instante - este é o ponto de partida do filme - em que levas de cubanos estão trocando a ilha de Fidel pela Miami rosa choque dos imperialistas. Nesta colagem, cabe uma variedade de elementos, que vão de de fotos a registros - ou reconstituição, não sabemos - de debates e conferências, pontuados por imagens dispersas do olhar popular nas ruas (a grande força do neorrealismo que o bom cinema nunca mais dispensou; inclusive o brasileiro que aqui e ali recorre a esse poderoso recurso). 



No meio desse tiroteio algo bêbado de sensações e percepções jamais cimentadas por um raciocínio minimamente coerente, você é conduzido pelo protagonista-narrador em seus monólogos. Ele lança em falas superpostas à dança das imagens um conjunto de teses pessoais que foge tanto ao engajado quanto ao totalmente cético. Talvez por isso mesmo, seja capaz de sair-se com constatações como a de que uma das principais características do subdesenvolvimento - algo superior à revolução em si e que permanece indiferente à vitória dos rebelados - é a incapacidade de aprender com as experiências. 

Certa inconstância psicológica não permite, ou bloqueia, o avanço, usemos logo a palavra certa, civilizatório - e reforço que o filme se passa no início da década de 60, antes de vitórias estatísticas importantes dos cubanos nas áreas de saúde e educação, assim como antes da outra crise causada pela saída de cena do apoio soviético. Pois bem, essa inconstância seria típica de um povo subdesenvolvido que, no limite, vive o tempo todo tão preocupado em se adaptar a uma nova situação crítica que não tem tempo ou interesse em aprender a pensar por si só, acumulando experiências - e no lugar disso recorre ao líder carismático. Isso lhe diz algo sobre o Brasil de hoje?

Neste desenho da perplexidade, o filme sem respostas segue misturando um certo existencialismo caribenho com o bricabraque das imagens reais da época, até desaguar na crise das crises: a questão dos mísseis soviéticos enviados a Cuba que quase resulta no estopim de uma III Guerra Mundial, o corolário da guerra fria. Tomás Gutiérrez Alea, o diretor do clássico que Nina trouxe pra mim direto de Cuba quando lá esteve num curso de cinema (talvez o mesmo que minha amiga Marcya Reis fez anos atrás), encerra o filme sem explicar o desfecho dessa crise dentro da crise. Já é o bastante expor essa espécie de "Cuba, Cidade Aberta" como metáfora da indefinição que mesmo uma revolução tão saudada - e tanto quanto demonizada - mundo afora pode provocar. É um grande cinema para um momento ímpar. Que bom que tenha sobrevivido e seja vendido até hoje nas ruas de Havana. Porque a perplexidade, nos anos 60 ou hoje, é um patrimônio daquela parte da humanidade que está sempre se interrogando - e recusará sempre a resposta cômoda, pronta e acabada. Justo o que estamos passando agora.

 
 *Minha cópia está à disposição dos amigos interessados em ver Memórias do Subdesenvolvimento de maneira mais confortável no DVD de casa (deixe recado aqui ou no Facebook). Mas pesquisando no YT acabei encontrando o video acima, que traz mais do que o filme completo: tem comentários de Nelson Pereira dos Santos, Walter Salles e Eduardo Coutinho. Lá vou eu ver tudo de novo somente pra acompanhar o papo dos três. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um dia de cada vez





Every Day, um livro pra adolescentes – primo de todos aqueles títulos de John Green – tem uma premissa irresistível: imagine alguém (garoto/garota – e essa variação torna a coisa ainda mais instigante) que não existe em um único corpo físico, como qualquer um de nós, teenager ou not. Todos os dias, invariavelmente, ele “acorda” – e as aspas estão aqui apenas para dar ainda mais literalidade ao termo – no corpo de alguém de sua faixa etária, por volta de 17 anos salvo qualquer esquecimento. E vai viver aquele dia nas circunstâncias específicas daquela pessoa. Todos de uma mesma região, de cidades próximas, com realidade ao mesmo tempo semelhante mas absolutamente diversa a partir do momento em que se está na pele de cada um.

É um desses livros cultuados pelos adolescentes cobertos pela cultura pop americana atual – e, segure as pedras nas mãos, como é bom, interessante, rico, sugestivo e finalmente divertido. A cada dia, o personagem que se identifica apenas como A. vive um dia da vida de outra pessoa da sua idade. Com isso naturalmente ele experimenta vivências dos outros com uma profundidade de que nem desconfiava, num leque de possibilidades que cobre temas como a dependência de drogas, a homossexualidade, a depressão juvenil ou a inconsequência pura e simples. Não há explicação para o fenômeno – a graça está em vivê-lo junto com o protagonista-narrador e, por meio dele, experimentar as dores e delícias de ser o que é cada um dos jovens cujos corpos ele ocupa. Não consigo pensar em tema mais atual. 

A. já se acostumou a este tipo de vida e não se furta a explicar, neste seu monólogo que logo se tornará uma espécie de diálogo muito mais problemático, como harmoniza tudo se a cada dia precisa se adaptar a uma existência diferente. O problema – e aquele diálogo complicado vem daí – é que um dia ele se interessa a tal ponto por uma garota que se vê levado a revelar essa situação (claro, só nós leitores e ele sabemos de sua condição). Também passa um sufoco depois que um adolescente mais atento desconfia de que foi tomado por alguma forma de vida que não era ele próprio. São notas de aventura que mantêm o livro de pé, fazem o leitor quase devorar as páginas de tanta ansiedade para vencer os desafios narrativos que a premissa estabelece. 

Mas o fundamental é a essência do tema: viver um dia na pele de um contemporâneo do seu tempo e do seu mundo e experimentar ver este mesmo mundo sob a ótica de um semelhante nem tão semelhante assim na hora do pega-pra-capar. Every Day é um achado. Despretensioso na abordagem, leve na profundidade, grande na efemeridade que não tem vergonha em aparentar. Um best seller como há muito eu não lia.

Back to Auster



Reencontrar Paul Auster com este Leviatã foi, primeiramente, como religar os pontos com o Phillip Roth de Pastoral Americana. Só que no lugar da maluquete pop-terrorista do livro de Roth, temos aqui um par de escritores do tipo ponderado/desiludido, focalizados no quadro geral da loucura norte-americana que resulta em bombas, tiros e assassinatos (um tema recorrente que cobre tanto Kennedy quanto o 11 de setembro). Atentados como slogans desesperados em faixas abertas no Central Park.  América, terra de oportunidade para todos - incluindo os fanáticos. Numa primeira impressão era bem menos próximo do Auster de que me lembrava, aquele das subjetividades de O conto de Natal de Auggie Wren, o miolo do relato do que virou o roteiro e o filme Cortina de Fumaça (que, milagre dos milagres, acabo de encontrar em DVD numa feira de trocas num aldeia nas matas de Goiás, mas esse é outro papo). Em termos formais, há sim, a mesma identidade - neste escrito como naquele, ou naqueles, Paul Auster tem o costume de abrir grandes valas de não-acontecimentos, dúvidas, terrenos de sombras, parênteses do desconhecido, histórias perdidas que mais tarde, só bem mais tarde, os personagens - e nós, leitores, junto com eles - vamos recuperar. Soa divertido porque você acaba tendo a impressão de estar remontando os romances junto não só com os personagens, mas com o próprio autor. Pensando bem, as cortinas de fumaça continuam lá, as longas conversas, as especulações sobre o que este incômodo (mal) estar sobre o mundo sugere, inspira, cogita e nunca define. Eis Paul Auster, eis uma retomada.

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Começar o ano lendo um Alex Nascimento, justamente chamado "Um beijo e tchau". Isso é bom; isso é ruim? Isso é o que é - e tcha...