Aí está a reprodução integral de um filme tão grande quanto difícil de encontrar para ver, rever, examinar, estudar, pensar e se emocionar. É o "Cabra marcado pra morrer", o documentário brazuca número 1 de Eduardo Coutinho. Pra os que fazem parte da tribo de Poti, como eu, é um filme que fala particularmente ao pé do ouvido, visto que Elisabete, sua mais que brasileira protagonista, passou anos vivendo clandestinamente na hoje submersa São Rafael, se não me fala a memória - essa matéria tão subjetiva e tão fascinante que é, ao fim e ao cabo, o tema do filme, aplicado a um período histórico brasileiro marcado pela mais pragmática das represssões políticas. O link está aqui, ademais, para lembrar o fixo ou eventual frequentador da Hamaca que a partir de agora há um outro link, este permanente, ali na coluna "Diversão e Arte" ao lado, que leva diretamente ao canal do YouTube que abriga filmes brasileiros completos. Tem muita preciosidade lá que você não encontra em locadora alguma, como vários filmes de Glauber Rocha menos notórios do que os deuses e diabos habituais. Ao filme, bom divertimento e boas incursões por esse nosso mui precário mas também bastante amado audiovisual brasileiro.
conexões entre amigos, livros, filmes, discos, memórias, férias, viagens, natal e brasília
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
terça-feira, 12 de abril de 2011
Uma parábola sobre lei, coragem e imprensa
Numa cena que só à primeira vista parece inexpressiva em "O Homem que matou o Facínora", alguém que vai embarcar numa carruagem passa o dedo sobre a superfície de madeira do meio de transporte do velho oeste e remove uma respeitável camada de poeira. Essa imagem, em sua simplicidade, é como um resumo do filme inteiro. Este clássido de John Ford, com John Wayne e James Stewart, é idolatrado por dez entre dez jornalistas conscientes das debilidades de sua profissão. Trata de uma cidade sustentada por um mito. Uma grossa camada de poeira que o tempo vai assentando mais e mais sem que nenhum de seus moradores queira removar.
A poeira, no caso, é uma lenda conveniente sobre quem matou o mais temido dos bandidos da região. Um pioneiro do legalismo pouco dado às coisas da violência e da frieza emocional leva o crédito - o que, de alguma maneira, ajuda a cidade a rever seu ajuste na mudança dos tempos que é sempre um tema nos melhores westerns (você sabe, aquele momento em que um fiapo de lei, direitos e deveres começa a substituir a pistolagem pura e simples que marcou o desbravamento do oeste selvagem dos zéua lá em cima do Equador).
É por isso que "O Homem que matou o Facínora" lembra muito o nosso "O Berço do Herói", a peça de Dias Gomes que deu origem a um sucesso da televisão, a novela "Roque Santeiro". Porque por um momento - o longo instante de duração do filme - essa verdade incoveniente ameaça vir à tona. E com a revelação, suas consequências. Um momento em que se pesa conveniências, riscos, possibilidade de mudanças drásticas, reviravoltas que obrigam uma comunidade a se rever. E se ela perder o prumo diante da envergadura da própria mentira que a sustenta?
Neste entrecho, a figura de John Wayne surge como se fora uma flor de cacto no filme: ele contém toda a dor de não poder revelar o segredo à cidade - o fato de que foi ele, o homem bruto, o autor do assassinato mais esperado, e não o jornalista almofadinha a quem todos desprezavam até o momento do crime - e toda a ternura reprimida de entender tudo. É de uma superioridade o John Wayne deste filme que comove o espectador, este que priva com ele o conhecimento da verdade. Tudo inspira repulsa misturada com compaixão. Wayne vê esse panorama do alto e passa por ele com a elegância de quem não tem a menor chance de dividir com quem quer que seja sua dor. E ainda perdeu a mulher - para o jornalista almofadinha, que virou senador e acaba de retornar à cidade, dando o play para que o filme comece a desfiar esse novelo ressecado pelo tempo.
Fez algum tempo que revi o filme em DVD. Escrevo aqui a partir de notas que deixei num caderno. E lá também está escrito que este é um filme sobre formas diferentes de coragem que se juntam: o cidadão cego por sua campanha em favor da legalidade e o pistoleiro seguro de sua eficiência, Stewart e Wayne respectivamente. Dito de outra maneira: a peleja entre a realidade acachapante de uma terra sem lei e o empenho sem chances de um homem incapaz de enxergar a extensão do risco que está correndo. Mas Stewart não desiste de implantar aquela legalidade, por mais vulnerável que ela pareça - e seja - no início desse processo. E se o fará, será com a ajuda do inculto mas realista Wayne (que lembra muito o Gene Hackman de um filme que seria feito anos mais tarde, em 1988, o "Mississipi em Chamas", de Alan Parker; o correspondente a Stewart aqui é o procurador ingênuo feito por Willem Dafoe).
"Quando a lenda fica maior do que o fato, publique-se a lenda": a frase é bem conhecida e é a última anotação sobre o filme no meu caderno. Nâo sei se o filme foi sua fonte primária ou se a anotei ali apenas pela coincidência temática. Um filme a rever, sempre.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Cinema de outras terras (2)
A gente persegue os filmes ou são eles que não saem dos cascos da gente? Os temas que a vida propõe, em forma de narrativas, livros, imagens, programas de tevê, cinema e alhures são resultado de alguma conspiração dirigida individualmente para cada um de nós ou tudo não passa de uma vazia coincidência? Sei não, só sei que logo depois de escrever aqui aquelas bestagens sobre o filme "Terra Vermelha", fui assistir a "Brincando nos campos do senhor", um anti-épico oitentista com a assinatura sempre respeitável do argentino-brasileiro Hector Babenco, e parece que é o assunto que me persegue, se não for o caso de eu mesmo estar no rastro dele mas sem me dar conta dessa procura. E vêm as distinções, com ou sem o circunflexo daquela tal reforma: "Brincando" reforça um pouco o que eu dizia na conversa anterior, sobre filmes que de tão afiados na sua teimosa reconstrução de uma realidade miserável tornam-se eles mesmos qual faca afiada que é bela quando refletida à luz da lua mas intimida quando se pensa no risco de se trocar o olhar contemplativo pelo tato que ocasiona corte, sangue, dor.
Ficou barroco demais, já entendi e já me explico. "Brincando" é um filme que, por mais exato que seja na exposição da realidade amazônica-indígena da época, mostrando os riscos da conexão selvagens-padres-e-evangélicos-fundamentalistas-americanos-cometendo-equívocos-quando-pensam-estar-salvando-uma-espéce, ainda é uma produção enquadrada na moldura do cinema convencional-narrativo-ocidental-clássico. E "Terra Vermelha", talvez por ser um filme, no bom sentido, nacional, não sofre daquela amarra que por mais sutil que seja é sempre como uma corda prendendo o filme de Babendo no pé da mesa da indústria audiovisual da banca de Tio Sam. "Terra", não: pode se dar ao luxo de ser o fracasso de público que deve ter sido mesmo, não precisa se imolar diante do fato de ser visto em poucas e raras salas, não raro apenas em sessões de festivais de cinema onde brilham mais as pérolas menos acarinhadas pelos esquemas promocionais de costume (embora isso também seja uma espécie de fetiche alimentado por certo segmento do público e independente da qualidade do filme, mas esse já é outro papo que não cabe aqui).
Enfim: enquanto "Brincando" chega até a enternecer ao mostrar a fragilidade de uma comunidade indígena semi-isolada na floresta amazônica, "Terra" será sempre aquele chute em testículos desavisados para com a realidade suicida do que restou das nações que habitavam o território do atual Mato Grosso do Sul. Entre um e outro, há um rio caudaloso de gradações. Numa margem, por maior que seja a dor do Tom Bereger desprovido de identidade e ansioso em se mesclar aos silvícolas tupiniquins, sempre será um pouco Hollywood. Na outra, a lama local levou qualquer resto da estética cinemão e deixou apenas o limo de nossa própria decadência antropológica. Certo tipo de espectador do primeiro (que sairá, ainda que triste, narrativamente satisfeito da sala de exibição) poderá dar as costas ao segundo (do qual, muito provavelmente, sairia antes do final da projeção).
Uma última nota que o filme, revisto em tempo deslocado e posterior, provoca é aquela referente ao tema do fundamentalismo religioso. Vendo, lendo e ouvindo sobre aquilo em que os EUA estão se transformando à sombra dos tea parties da vida, não deixa de ser curioso acompanhar a aventura tão ingênua quanto criminosa do grupo de missionários em busca de conquistar tribos remotas da floresta brasileira. Rever tempos depois um filme marcado por outra década quase sempre traz essa impressão de pulga atrás da orelha, comentando ironias, com pequenas risadas, chistes desperdiçados. "Brincando nos campos do senhor", que continua bem poético e transcendente na cena em que o piloto Bereger quase joga seu teco-teco num bloco maçiço de montanha na floresta, hoje soa como uma amarga premonição de impensável futuro na antropologia não dos povos da floresta, mas do americano médio que quer despachar Obama com a mesma fúrica com que apoiou Bush, embora todo mundo tenha esquecido disso.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Cinema de outras terras

Quem, como eu, aprendeu desde menino que entrar numa sala de cinema é entregar olhos, coração e mente a uma experiência de entretenimento - naturalmente, com a esperança de que tal entretenimento seja minimamente inteligente - ainda sai desta mesma sala meio tonto quanto assiste a algo que vai além desse propósito -ou fica aquém, conforme a perspetiva pela qual se veja o problema. Eu falei "problema"? Um filme não deveria ser um "problema" - antes, uma solução para a fome de imagem, informação, envolvimento, distração, conhecimento. Mas filmes como "Terra Vermelha" são uma amostra de danações expostas que contrariam tudo o que vem sendo dito desde a primeira palavra desta conversa aqui - precisamente, "quem".
E quem, como eu, ainda estranha filmes como "Terra Vermelha", pode-se considerar um feliz espectador em formação. "Terra Vermelha" é aquele tipo de ficção com o maior ar de documentário disfarçado, de tão real e de tão intenso na sua busca de retratar em filme uma tal realidade. No caso, a realidade dos índios do Mato Grosso do Sul cuja sobrevivência cultural e econômica - sobretudo econômica - está confinada a áreas de reserva onde a existência deles simplesmente não cabe. E no rastro dessa espécie particular e sinistra de segregação, vem toda uma decadência que aos olhos dos brancos, ao invés de denunciar a natureza do problema, termina por reafirmar o mito de que o índio, beberrâo e errático, é o responsável pela sua própria danação. O filme faz a antropologia dessa tragédia rural e urbana sem abrir mão de certo distanciamento e determinada dureza de olhar. Quando o espectador ahbituado ao entretenimento - ou mesmo ao cinema lírico de arte, mas sempre narrativo - se defronta com esse tipo de cinema, não há como o estômago não revirar como deve ocorrer com as entranhas de um índio faminto.
"Terra Vermelha" bebe no mesmo balcão sujo de bar onde se escoram, qual bebuns perdidos mas visionários, filmes como "Baixio das Bestas" e "Amarelo Manga" - ambos, salvo engano, do pernabucano Cláudio Assis. A pequena diferença que houver, se existir, está no fato de Cláúdio Assis nutrir, pelo menos é o que se sente diante de seus filmes, certo culto até meio fetichista pelas misérias que exibe, enquanto a triste condição dos índios suicidas de "Terra Vermelha" soa mais como o lamento de quem vê aquilo com um choro preso na garganta- sujeito a se impressionar, mas já sem capacidade de de se comover. Se Assis só enxerga palperização - inclusive cultural - quando está diante da miséria dos mestres de maracatus do agreste pernambucano, o diretor de "Terra Vermelha" (Marco Bechis) também é um observador inflexível frente à tragédia do índio sul-matogrossense. Mas ele acrescenta a esse anti-receituário visual uma carga de dignidade derradeira - e inexpugnável. Vide a cena mais famosa de seu filme, aquela em que o índio velho mastiga e engole um punhado de terra diante do fazendeiro que quisera provar sua ligação telúrica com o lugar apenas segurando um torrão de punho erguido no ar.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
19 dias, 2 livros, muitos filmes
Pensando bem, o que são 19 dias num calendário que se compõe de 365 manhãs, tardes e noites, espraiado por 12 meses, tingido por estação seca e estação chuvosa, adornado por festejos como o São João, a Páscoa e o carnaval, demarcado, no caso específico deste 2010, por uma eleição presidencial e uma copa do mundo de futebol? Nada, nadinha, parece. Mas é bom poder dizer que, mesmo com as férias da garotada e a procura incansável por atividades recreativas no turno matutino, o que inclui visitas a parques variados em dias alternados, este início de 2010 já me trouxe uns bons dividendos sapienciais depositados no bisaco das ilustrações que a gente proporciona à gente mesmo. Pois bem, são 19 dias e 44 anos redondos exatamente hoje, dois livros lidos, pouco mais de meia dúzia de filmes - uns vistos, outros revistos; uns em casa e dois (dois! viva!) no cinema -, parques revisitados e até um dia na cachoeira de Itiquira, em Formosa, Góiás. Enfim, um panorama renovado tanto quanto possível neste ano que começa salpicado pela dor de tantas desgraças. Não é pouco, e pode ser muito mais do que o bastante. Vamos a uma síntese deste almanaque inaugural.
Começando pelos livros, venci a flora de artigos que compõe a segunda parte daquele "Cinema Brasileiro - Propostas para uma história", em que Jean-Claude Bernardet nos contraria inteligentemente com uma visão que eu, ignorante de boa cepa, ainda não havia encarado sobre o cinema feito no Brasil. A postagem anterior desta Hamaca já anunciava (leia aqui) o objeto do livro e a forma como ele lembra que o domínio estrangeiro, e sobretudo ele, foi o grande empecilho à afirmação de uma mui desejada indústria do cinema no Brasil. É isso o que consta na reedição do ensaio original de Bernardet, mas os artigos que foram adicionado a esta nova edição de bolso reforçam cada um dos argumentos que o estudioso do cinema vinha martelando na primeira parte.
É saboroso ler Jean-Claude mostrando como um filme como "Terra em Transe" foi, incoscientemente ou não, mal compreendido pela classe média intelectual e esclarecida do Brasil urbano dos anos 60, quando dizia, esta dita classe ilustrada, que o filme de Glauber Rocha era muito bom mas, pena, inacessível para as massas, o povo, o público ou outra palavra similar (aliás, Jean-Claude faz questão de distinguir "povo" de "público", o que é outro achado contido no livro). O crítico de cinema lembra, a tempo, que o filme se dirigia exatamente a este público esclarecido de classe média, público elitizado, ideologizado, mas cego à restrita influência que exercia sobre o conjunto dos brasileiros, o povo propriamente dito. É como se Glauber atirasse uma pedra à esquerda sabidinha da época e essa esquerda de carpete olhasse para o lado, fingindo que a pedrada não era para ela, mas para o povo que infelizmente não tinha refinamento suficiente para entendê-lo. (a propósito: veja trechos do filme na barra de vídeo, na coluna à direita)
Mas o fato é que, no calorinho que vai chegando, na noite calma do Lago Norte, na rede da varanda e depois do fervilhado sonoro que é a algazarra dos meninos no passeio anterior à leitura, a viagem por esse guia é um refresco de caju. Uma bela rememoração da cidade, uma palestra histórica tão superficial quanto arejada sobre o passado da cidade de Jerônimo de Albuquerque, um passeio virtual pela terra onde morreu o revoltoso André de Albuquerque - e até uma visita curiosa aos domínios de seus personagens mais delirantes, com Severina, a imperatriz do Brasil.
No DVD, um filme a que há tempos queria assistir. É aquele "Frost/Nixon" que deveria ser um manual de procedimentos sobre a verdadeira opinião pública que todo político inteligente deveria carregar debaixo do braço, para consulta sempre que possível. "Frost/Nixon" merece uma postagem à parte no "Sopão", mas teria que constar aqui como o melhor deste ano que se inicia, com o atraso regulamentar que vai se tornando uma marca deste espectador. Fora ele, ainda consegui ver neste espaço de 19 dias os seguintes filmes - uns novos, outros, em releitura de matar saudades:
"Barravento" (Glauber Rocha),
"Esse milhão é meu" (Carlos Manga),
"Paris, Texas" (Wim Wenders),
"Cidade de Deus" (Fernando Meirelles e Katia Lund)
"Impacto Fulminante" (Clint Eastwood)
"O homem que copiava" (Jorge Furtado)
"Antes do Amanhecer" (Richard Linklater)
"Lisbela e o Prisioneiro" (Guel Arraes)
"P.S, Eu te amo" (Richard LaGravanese)
"Separações" (Domingos de Oliveira)
No cinema, além de "Lula, o filho do Brasil", produto da marca Barretão digirido pelo filho Fábio, que ocupou a primeira tarde do ano e sobre o qual já não há mais nem o que dizer (se quiser saber mais, clique aqui), ainda tive o privilégio de uma sessão noturna, num domingão, no cinema do Deck Norte, a um passo de casa, onde vi "Amantes", oportunidade para descobrir James Grey, diretor cujos filmes ainda não haviam passado pela minha retina. E uma novidade é sempre bom (resta agora, encarar os outros filmes do cara, como aquele "Os donos da noite" à venda nas Americanas).
E pra fechar a lista, os parques urbanos, para onde se leva as crianças, onde se comete uma caminhada e se pratica alguma leitura enquanto Cecília e Bernardo se penduram onde não deviam mas também de onde não se consegue bem tirar uma criança. Com a diligente colaboração de Ivone, a nova general que nos ajuda a tomar conta dos pimpolhos, sempre é possível uma digressão à sombra das árvores fartas do parque Olhos d'Água, no final da Asa Norte, ou do Parque da Cidade, na área central, ou até na cachoeira de Itiquira, destino desse domingo passado, paisagem para um dia inteiro, em passeio que traz de volta, no leito da estrada, a visão de Pirenópolis, Goiás Velho e Caldas Novas, nossos refúgios quando a rotina do trabalho faz esquecer que o ano já vai longe. O que, por enquanto, ainda demora um pouco, no caminhar destes primeiros e bons 19 dias.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
O calor da frieza em "Control"
Em certo momento de "Control", o filme que narra as agonias metafísicas de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, um técnico de estúdio de gravação pede que baixem o nível do aquecedor no aquário onde o cantor está gravando. Durante o filme inteiro, é como se o diretor Anton Corbijn fizesse o mesmo com as imagens, o clima, a narrativa, o andamento, o desfecho dessa história sóbria e sombria. Não que o tom de distanciamento implique em frieza emotiva: é, antes, uma geleira audio-visual que confere estranho calor ao protagonista em rota de colisão com ele mesmo e o mundo que o cerca.
O resultado é, na superfície, uma fotografia tão límpida quanto bela, algo pop mas sem aquele vazio involuntário que tantas vezes este tipo de universo visual trai. Essa bruma branca que colore de tédio e desesperança as cenas do filme faz o espectador entrar com sapatos sujos na mente ao mesmo tempo plácida e tempestuosa do seu personagem principal. Praticamente não há música conduzindo a história - e ela só vem mesmo quando a banda se põe a tocar. Um filme que parece ter sido feito dentro de uma garraga vazia e entre placas de algodão, numa anestesia de torpor de efeito inverso, que é o de externar em imagens e (ausência de) sons o desfiladeiro interno de Ian Curtis.
Não sou fã da banda, não conheço sua trajetória, o meu universo sonoro frequentemente é outro - a quente, sudorenta e saturada música brasileira me pega cada vez mais - mas posso dizer, por isso mesmo, que o filme se sustenta sem as referências externas. Se não é exatamente um prazer participar do mergulho paulatino de um garoto de 20 e poucos anos na bacia metálica do suicídio, não deixa de ser um exercício de apreciação acompanhar o fluir desse vôo submerso pela matemática do cinema, num filme que aspira qualquer excesso da tela para que o espectador possa respirar um ar próximo ao que leva um ser humano de tão pouca idade a cometer ato de tal radicalidade.
O título, essa referência à falta ou excesso de controle, é mais do que uma pista. É questão de idade saber ou não lidar com ele, dentro ou fora do mundo rock, da esfera pop ou do show business.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
De volta ao Cinema Paradiso
Uma noite dessas revi, pleno de satisfação e nostalgia, um daqueles filmes que entram na vida da gente embrulhado em papel de presente para se tornar um clássico reluzente. Ou você não sentiu o mesmo quando viu "Cinema Paradiso", a enluarada crônica melodramática de Giuseppe Tornatore? Ou por acaso, só pelo fato de ter lido aqui o nome deste filme, você não lembrou, automática e instantaneamente, o cinema onde o assistiu pela primeira vez, assim como a emoção que sentiu quando, encerrada a projeção, saiu às ruas, quem sabe num início de noite com as luzes da cidade se acendendo enquanto o trânsito se avolumava?
"Cinema Paradiso" é um fim ímpar, porque estabelece, desde a primeira vez em que você o vê, um espírito de nostalgia. É um filme naturalmente evocativo - trata da evocação, precisa da reminiscência, estimula esse sentimento, usando a matéria prima do cinema em estado bruto para realizar seus objetivos. Por isso, é tão curioso revê-lo vinte anos depois - você mal notou, mas já faz vinte anos que este filme entrou em cartaz nos cinemas brasileiros. Se, na época da estréia, ele lhe remetia para o encantamento da sétima arte de antigamente, seja o cinema poeira do bairro periférico ou o cinema da cidade do interior que quase todos têm preservado dentro de si, revisto hoje, "Cinema Paradiso" acaba sendo uma curiosa reelaboração sobre ele mesmo - o momento em que você o assistiu anos atrás.
É nostalgia sobre nostalgia, em camadas delicadamente superpostas. Na estréia de ontem, você viajou à infância - no meu caso, do parelhense Cine Rex onde vi de Teixeirinha aos Trapalhões, passando pelo Superman e o King Kong dos anos 70. Na reprise de hoje, por obra e graça do DVD, você retorna ao final dos anos 80, e a toda a moldura que havia em torno do instante em que você deixou a sala de exibição -no meu caso, do cine Rio Verde, avenida Deodoro, em Natal.
Mas, de uma maneira ou de outra, estréia ou releitura, sala cheia ou solidão noturna na sala de casa, o choro vem. Nâo há filme que mexa mais com nossos cansados prantos do que esse e sua narrativa da viagem deste senhor pelos tempos e lugares reais ou imaginários, concretos ou projetados na tela. A coisa mais bela, entre todas, é aquele momento em que o projecionista Alfredo desvia o foco de luz da projeção para um muro e ilumina a rua com o filme que tantos queriam assistir mas não havia lugares suficientes dentro do cinema. Depois, ele coloca uma caixa acústica para reproduzir o som. Alfredo olha de longe, o menino Totó escora o cotovelo na janela, ampara o rosto e assiste ao deleite da multidão. O cinema é aquilo, simples e grandioso. Um minuto depois e se dará a tragédia que move a história e a engrenagem da vida do garoto e seu tutor informal.
Sequencias como essa justificam plenamente uma frase que acabei de ler em "Grandes Filmes", o segundo volume de análises de Roger Ebert: "Chegamos a diferentes filmes por diferentes motivos e sua grandiosidade se apresenta sob muitas formas."
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