segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Natal em dia branco



Foi uma visita de médico (brasileiro, not cubano, ao que consta) a Natal no final de semana que passou. E nos recebeu entre a tarde de sexta e os finalmentes abreviados do domingo uma cidade quieta, calma, tranquila como ela um dia terá sido. Natal meio vazia, sem um só, solitário e agoniado reclamão no trânsito; Natal clara, vestida de branco como um protesto destinado a acabar em grossa pancadaria, branca como uma velha canção de Geraldo Azevedo. Uma Natal julina, baixo-estacionada em intervalos de pacotes turísticos. E, no entanto, cheia deles no hotel. Mas nem assim - Natal go back, oitentista num piscar de olhos entre uma sexta e um domingo. 

Teve show na Ribeira, compromisso familiar - o aniversário da matriarca Izabel, que merece todas as homenagens -, teve praia apesar do nublado julino que não faz diferença alguma; ao contrário, mantém aquecido o corpo sem tostar o cangote. Tinha tudo pra ser massacrante, corrido, ansioso e demarcado e no entanto tudo soou como um sunday de pitanga, açaí com mel na entrada do conjunto Ponta Negra onde, aliás, nem deu tempo de ir. Natal fora de feriado, quase fora de temporada, fora das caixas registradoras e meio fora de si como convém vez em quando. Natal do alheamento, quando você encosta o cotovelo num cascudiano canto de muro e deixa-se estar, sem mais. 

Nem a agonia da recepcionista do hotel que, num rompante, emparedou o colega de trabalho que se atrasou ao seu chamado - "que foi, tava com dor de barriga?" - tirou a placidez da minitemporada. Respirou-se, livre de horários por absoluta exiguidade do tempo disponível mesmo, o ar da passagem das horas. Tomou-se o sol dos últimos estertores do horário de verão, bebeu-se a água do "é comigo?", cheirou-se o perfume do fica pra depois e assim ajustou-se a nova e frenética Natal Citi de ganhos e despesas numa, como é que se dizia até outro dia pensando que se estava a falar mal do lugar...?, numa, isso mesmo, província abençoada do não ser e não estar. 

A propósito, pra quem achar que a abstração pode comprometer a qualidade da homenagem: esqueçam, vez em quando, Ponta Negra e Pirangi, e corram para lugar mais próximo e de uma tranquilidade que vai explicar muito do que foi dito aqui: as praias desconhecidas da Via Costeira, nos oitões dos hotéis, onde se tem farta faixa de areia, um ou outro vendedor afixado para lhe garantir uma bebida (não mais que isso, como tantas vezes convém), espaço à vontade e uma sensação sem palavras de mar de infância, dessas que ilustravam antigos livros didáticos da segunda série primária. Você vai descobrir outra Natal.*

*De toda aquela extensão da Via Costeira, recomendamos a praia situada atrás do Hotel Parque da Costeira: você tem estacionamento à vontade e uma rua pavimentada em paralelepípedos para lhe levar até à beira do mar. Sossego que hoje, quando existe, custa caro. Lá, é de graça.  

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O listão do Leitor Bagunçado

 

Como acontece todo final/início de ano, o Leitor Bagunçado é chamado às fuças pra prestar contas de sua produtividade ao longo dos doze meses anteriores. Afinal, não basta ganhar um apelido bacana - é preciso estar à altura dele e mostrar, na chincha, o tutano que lhe dá sustância. Uma lista muito coerente de livros lidos ao longo do ano, portanto, é bola fora. O que vale mais é a balbúrdia literária, que ora joga numa biografia matadora (como "Steve Jobs", um painel incidental do mundo da informática, que fechou o ano e é de dar saudade por várias semanas), ora vai de romance noir como há tempos não está nem um pouco na moda - pior para a moda (é o caso de "O longo adeus", Raymond Chandler).

Falar em moda, o Leitor Bagunçado frequentou, sim, títulos que se tornaram meio obrigatórios, como o cool e brazuca-invernal "Barba ensopada de sangue", de Daniel Galera - uma história que infesta com dramaturgia de desencontros familiares um vilarejo típico de verão. Só pra não manter coerência alguma, citemos agora o bravo, corajoso (porque autêntico) e sobretudo comovente (uma característica difícil de se encontrar num ensaio) "O fole roncou". Ao se arriscar a empacotar em um só livro as mil e uma biografias dos músicos que dão vida ao forró, de Gonzaga a Dominguinhos, de Marinês a Seu Vavá (quem? Genival Lacerda), os autores tratam esse gênero musical com o respeito e a importância que ele tem na cultura nordestina - diga-se mais, na indústria cultural nordestina, que garantiu ao forró um outro estatuto. 

É para mudar radicalmente de assunto, garantindo o caráter bagunçado do insistente leitor? Então bote aí "Ostra feliz não faz pérola", pacote de textos paracomportamentais de Rubem Alves, autor que o dito leitor desconhecia até este ano. Precisa voltar a este oráculo da modernidade.  Também ficamos em dia com a bagunça da modernidade tucana da era FHC lendo, bem depois de todo mundo ou com o atraso regulamentar a "Privataria Tucana" do repórter Amaury Ribeiro Jr, cuja documentação é vasta, mas qualquer leitor sabe que, independente da legitimidade, documentos são sempre chatos: o melhor do livro é o clima nos primeiros quatro capítulos, um rastro de suspense e tensão inerente aos turbulentos episódios narrados. Se você quer conhecer melhor os meandros por onde andam os eternos presidenciáveis do partido - Aécio e Serra - passe os olhos neste livro. 

"Hamlet no Holodeck" nem deveria estar aqui: é leitura semiprofissional, usada por mim na monografia que escrevi sobre TV Digital para uma Especialização da Universidade Católica de Brasília. Mas como é bom, viu? Quase bota minha dissertação a perder, desviando de vez o tal do foco. Gosta de seriados, de hoje e de antanho? O livro vai lhe animar bastante. Mas é do tipo que só comprando pela internet, sob encomenda e tal. Se o seu caso é mais um ensaio de maior gravidade, experimente voltar a Erick Hobsbawm, com o "Tempos fraturados" lançado este ano. A recomendação é que primeiro leia um dos clássico do historiador que nos deixou este ano - eu fui de "A era dos extremos" há alguns anos. Esse "Tempos" vai soar mais duro aos seus olhos, mas mesmo assim tempera nossas dúvidas mais recentes, especialmente se você é do tipo que ficou todo animadinho com os protestos de junho. Cuidado para não se entusiasmar muito e acabar tirando conclusões impacientes como as de um black bloc embriagado. 

Grandes narradores, do tipo inesgotáveis, que se jogam nos textos e o afundam o leitor nas suas águas, seja este bagunçado ou não, também frequentaram a lista de 2013. Lembro o velho Bukowski de "Hollywood", com um argumento sob medida para o seu espírito bebum-transcendental: a encomenda de um roteiro pro cinema que nunca vai sair conforme o esperado. Outro exemplo é o Ian MacEwan de "Serena", com uma metalinguagem tão bem realizada que você nem desconfia até chegar ao último parágrafo. Belas ideias sobre livros, leitores e leituras. Ou um autor serialista, desses que enchem listas de mais vendidos com seus investigadores recorrentes: fui de Daniel Silva e seu "O caso Rembrandt".

Tem como passar 365 dias sem ler nem um título sequer sobre o mundo do cinema? Impossível, como comprova a lista 2013 do Leitor Bagunçado, apresentando o legalzinho "Alfred Hitchcook e os bastidores de Psicose", de Stephem Rebello, que veio junto com o filme adaptado. Na mesma estante, "Alguma solidão e muitas histórias", livro-depoimento do cineasta João Batista de Andrade, o homem por trás de filmes como "O homem que virou suco" e "A próxima vítima" (este, um pequeno clássico noir-paulista feito nos anos 80, injustamente esquecido). O volume da conhecida coleção da Imprensa Oficial paulista é de uma angústia de fazer medo - tanto mais porque soa verdadeira, nem um pouco glamourizada. João Batista é um homem triste, fazer o quê? Como dizia Leminski (que, apesar do sucesso do relançamento de suas poesias, não está na minha lista deste ano), "um homem com uma dor é muito mais elegante". Inteligente, com certeza, o livro é. 

Pra encerrar na ordem inversa de leitura - como convém a um leitor que se julga bagunçado - vamos aos três primeiros livros lidos no ano que passou: a memória de Clotilde Tavares que, por se tratar da vida num internato acabou lembrando a minha própria ("Formosa és"); outra reminiscência embora trabalhada em tom de literatura direta ("Relato de um certo Oriente", de Milton Hatoum); e a biografia de Dilma Houssef escrita por Ricardo Amaral, que foi o livro em que eu ingressei em 2013, sob o aprazível ambiente de um hotel em São Salvador da Baía de Todos os Santos. O título era, é, será sempre inspirador: "A vida quer é coragem". E alguma bagunça, que ninguém é totalmente de ferro nem completamente de vento.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Goyaz

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Cenas da Cidade de Goiás durante o feriadão da Proclamação da República: é um goianinho curtido pelo tempo carregando seu matulão, é o almoço no mercado, é o anúncio do mototáxi no chão da calçada, é a bicicleta de plantão e por aí afora. Não chega a ser nenhum Photo&Grafia da sempre esperta Zuleika de Souza, mas são imagens que tocam o coração de quem veio de uma outra versão deste mesmo mundo interior.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Nossos leitores




O título acima não se refere aos leitores do blogue (antes que perguntem, gosto dessa grafia, que é a forma como o ex-blogueiro cearense-potiguar Francisco Sobreira empregava no seu desativado diário; soa mais português, a palavra impressa parece sair mais cantada). Os leitores em questão aqui são dois, bem específicos, cujas circunstâncias os coloca num patamar ainda mais especial quando se trata do exercício de submergir numa massa de textos e dela extrair imagens, mistérios, verdades, novidades e fascinantes interrogações. Nossos leitores são Bernardo e Cecília, nossos filhos que todo dia surpreendem a gente na simpatia que vão tomando pelos poderes da palavra escrita - sem precisar abrir mão das mais convencionais formas de diversão da idade deles. 

Aviso que este é um post absolutamente família, tipicamente "hamaca de poti" - porque, se o leitor não percebeu, aqui está precisamente a diferença, sutil diferença que não precisa gritar seu nome por aí, entre a Hamaca e o Sopão. Continuemos: os livros, nesta idade, e apropriados a esta idade, com massa de textos mais esparsa, ilustrações que servem de pontuação gráfica e demais recursos, vêm mesmo é do contato com os amigos. A primeira literatura é a literatura "da turma" (as demais não seriam? sim, até certo ponto mas só até ele). Foi assim que os livros da série "Os Seis" pegaram a mim e a meus amigos nos tempos do antigo curso primário, ali pela quarta-série, numa cidade que, sem livrarias, valia-se do reembolso postal para conseguir fazer chegar os livros.

Voltando ao presente, vamos a Cecília, que demorou para aprender a ler - pais, relaxem, é normal - e um dia nos pediu o livro inicial da série da "Garota nada popular": são cinco tomos, graficamente escrito numa tipologia que imita a caligrafia infantil, pontuada por charges, e, sinal dos tempos - pelo menos foi assim que percebi pelas poucas vezes em que peguei os livros - centrada não na criança-modelo, mas exatamente no seu oposto: aquela que não acerta, que faz tudo errado, que se atrapalha. Considerei saudável, embora sabendo que há um modismo inerente a essas séries às quais a meninada não resiste (o mesmo se pode dizer dos brinquedos; ora é a indefectível Barbie - pais, relaxem, é assim mesmo, depois passa - ora é, como agora (até quando, hein?) as bonecas Monster High. 

Pois bem, leitores, Cecília leu todos os cinco livros da série. Assim, sem que a gente tivesse sequer tempo de nos dar conta da rapidez. Empacou agora no sexto volume - que saiu há pouco tempo - porque viciou-se (relaxe, pai, agora sou eu que digo pra mim mesmo) no YouTube. Fui fazer a besteira de mostrar pra ela - justo por causa da Monster High - o video do Thriller de Michael Jackson... Pra quê? Ela aprendeu a pilotar o canal de videos, fez um curso completo nas músicas do astro americano e agora, depois que uma colega "do quarto ano" tocou ao piano e cantou "Let it be" sozinha numa apresentação na escola, está se iniciando no mundo dos Beatles, via YouTube... Vai ser difícil ela terminar de ler o último volume da Garota nada popular. 



Enquanto isso, Bernardo - que aprendeu a ler na velocidade e naturalidade de um espirro - pediu pra gente o equivalente masculino da série da Garota nada popular: sim, senhor, o igualmente indefectível "Diário de um banana". Pelo título dá pra ver que o espírito é o mesmo: rir da própria figura e das trapalhadas que fazem parte da infância. A molecada se identifica. Acontece que Enrico, o melhor amigo de Bernardo na escola, andava lendo o volume inicial do Banana (depois deste inicial, o leitor escolhe um dos outros vários títulos para continuar acompanhando o personagem e suas históricas). 

Compramos o primeiro livro e ficamos ali, achando que com a eletricidade que lhe é própia, Bê não ia passar da página 15. Pois ele saiu da livraria já lendo o livro enquanto caminhava - o que por sinal virou um hábito, mas Sandra, irmã de Rejane, garante que a mãe de Bernardo lia andando de bicicleta! Quando vimos, Bernardo, no mesmo dia em que o livro foi adquirido, já passara da página 80. O livro foi comprado num sábado e na terça seguinte o nosso leitor já havia dado cabo. Precisou esperar até o sábado seguinte para ganhar mais um volume - que, mantendo o ritmo, leu durante a semana. Pessoal, é o seguinte: Bernardo está lendo um "Diário de um banana" por semana!

Não é pra menos: fui ler um trecho pra saber o que estava oferecendo ao meu filho e tive um ligeira crise de riso: a parte que li fala de uma armação do Banana - que é como Bê chama o personagem - para arrancar dinheiro dos amigos: ele monta  no porão da casa de um colega o que seria uma espécie de casa assombrada. Paga-se o valor do ingresso - que ele aumenta por dez quando vê a inesperada fila se formar - e ganha-se o acesso ao "salão do sangue", quarto de não sei mais o quê e assim por diante. Claro que é tudo improviso e que depois do primeiro pagante o pai do colega, dono da casa, desmancha aquela bagunça toda. 

Mas como é divertido, sobretudo se você tiver no seu currículo infantil a aventura de ter inventado um cinema usando uma caixa de papelão grande com um furo no meio, histórias em quadrinhos coladas como se fossem um filme e uma vela para fazer o efeito da projeção. E se tiver, claro, cobrado um ingresso de dez centavos de cruzeiro para quem quisesse entrar no cinema que você montou com seu seu primo tão esperto quanto você. E cuja sessão durou só um dia porque algum adulto não gostou muito desse espírito empreendedor e tratou de fechar o estabelecimento.  

Enfim, é nesse cruzamento de brincadeiras pouco rentáveis mas certamente muito criativas com narrativas de outros empreendedores iguais a você que essas séries vão formando novas levas de felizes - e introspectivos, e curiosos, e contemplativos - leitores. O que surpreende a gente é quando tais criaturas aparecem no sofá da sala da casa da gente. Do tipo que quando a gente chama - vai almoçar, menino! - ele demora pra escapar das garras de tão envolvente leitura. E que isso esteja acontecendo em tão - como é que se diz? - "tenra idade". Nossos leitores estão por aí, em casa, no carro, às vezes lendo enquanto caminham na calçada, e a gente fica feliz de passar esse bastão pra eles, sem que tenhamos feito qualquer grande esforço para isso acontecer. O máximo que fizemos foi o mesmo que eles: não conseguir nos livrar dessa mania besta de estar sempre lendo - e não ter o pudor de exercer tal vício na frente deles. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Chuvas, litorais, telhados e praias



Amanhece um dia de chuva sobre o Sudoeste organizado que me arremessa feito nuvem de verão diretamente sobre os telhados curvos da praia de Pipa. Não agora, mas lá pelos idos de 1993-94, quando fomos todos, eu, Rejane, os cunhados Sandra e Novo com Raísa criança e Rafael ainda bebê, meu pai e minha mãe passar um fim de semana na pousada de Ana Anita, a “Praiana” que fica naquela rua onde durante anos a areia natural venceu o calçamento oficial. 


Houve sol (fotos abaixo), mas houve também muita chuva, razão da nostalgia disparada pelo gatilho da manhã em branco. Não tinha importância, como não tem agora, já que o que contava então e conta aqui é a emergência da umidade litorânea. Só quem veio do sertão habitualmente seco – mas extremamente verde e multicor quando as chuvas da infância vinham – pode entender a força dessas águas. Às vezes só o tempo nublado já basta para anunciar sua iminente presença, aproximação amiga. 


À tarde, víamos a chuva cair como um cobertor macio sobre os telhados de Pipa, retocando as cores daqueles tetos, muitos deles de casas ainda humildes hoje derrubadas para dar lugar aos novos empreendimentos. A praia toda, o horizonte inteiro que um quarto tipo família no andar superior da pousada oferecia à vista, ganhava uma mão de pintura natural que fazia ainda mais luminosa a paisagem em volta. Lembro da fachada de um antigo bar, o Hendrix, e da linha do mar com um verde-azul mais saturado boiando sobre os telhados, caixas d’água, murinhos e folhas de coqueiro. E a sinfonia dos pingos regendo tudo.  


Essa umidade entra pelo corpo da pessoa, faz algo como uma transfusão natural do líquido que domina grande parte do nosso organismo. Quem já nasceu em meio a ela pode não perceber, mas os esqueletos sertanejos como eu a experimentam como um milagre não registrado nos cartórios vaticanos. É exatamente o mesmo tipo de sensação que tinham quando, adolescente, passava temporadas na casa do amigo Ítalo em Recife, e também mais tarde quando atravessei todo o ano de 1984 cursando Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco: bastava o ônibus da Viação Progresso, vindo de Campina Grande, aproximar-se de Goiana e aquele verde da costa já começava a operar suas químicas na minha ressecada pessoa. A Zona da Mata sempre terá algo de paraíso perdido ou inalcançável - e o nômade Severino do poema de João Cabral é prova disso.

Até hoje há uma planta que me evoca essa epifania de geografia humana. Queria ser minimamente conhecedor da botânica para indicar o nome aqui: tudo o que posso dizer é que ela cheira a umidade do mar e felizmente está em todo lugar, como se fosse uma embaixada da costa onde menos se espera. Quando isso acontece, eu e Rejane quase disputamos para ver quem detecta primeiro: “Aquela planta...” 

Estrada de Trancoso 
Anos mais tarde o prazer da imersão neste mundo-litoral se faria ainda mais forte. Foi quando visitei a Costa do Cacau e espalhei restos do meu queixo caído nas estradas deste litoral baiano ao deparar com a autêntica paisagem descritas nos romances de Jorge Amado - e, mais impressionante ainda, com pessoa que pareciam ter pulado dos livros diretamente à realidade. 

Não é que a gente duvide dos autores que nos habituaram à dádiva da leitura: é que é muito forte - ao menos para corações desprevenidos, como o meu - dar de cara na estrada velha de Trancoso com uma baianinha cheirosa e adornada que por todos os efeitos lembra mais um personagem caprichosamente composto do que alguém de verdade. O mesmo se pode dizer de um velho tangendo bichos no acostamento de uma BR próxima a Itacaré - assim como de todas as crianças que habitam essa comunidade famosa pelos costões de coqueiros e rochas junto ao mar (registros dessa viagem nas fotos abaixo)




Toda essa peroração pessoal em torno de chuvas, litorais, telhados e praias o senhor leitor encontra em termos muito mais apropriados em Gilberto Freyre, fonte evidentemente muito mais autorizada. Sugiro que vá direto a “Nordeste”, o livro do velho sociólogo onde achei, em milimétricos detalhes e calorosas interpretações – o melhor de Gilberto é que ele escreve sempre com paixão – as explicações para esse meu apego nostálgico a essas coisas do litoral. 


O que o morador do casarão de Apipucos me disse, como quem assobia uma canção de Caimmy ao pé do ouvido, foi que o segredo deste fascínio está na doçura muito própria dos tabuleiros do litoral nordestino. E, embora se apoie nisso, a conexão com o cultivo da cana-de-açúcar vai além de uma abordagem meramente econômica.

Mel de engenho

"A cana-de-açúcar é uma planta profundamente ligada à água, ao contrário da planta que foi sua concorrente na ocupação do espaço nordestino, o algodão. Daí a separação entre as áreas de cana e as de algodão, entre o Nordeste úmido e o Nordeste seco", antecipa Manoel Correia de Andrade, professor da UFPE, na apresentação do livro de Freyre. 

Ao que o autor acrescenta, depois de reclamar da visão de um Nordeste unificado então vigente - hoje, bem menos, graças à feliz intervenção dos produtores de cultura desta nossa variada região: "Esse Nordeste de figuras de homens e de bichos se alongando quase em figuras de El Greco é apenas um lado do Nordeste. Mais velho que ele é o Nordeste de árvores gordas, de sombras profundas, de bois pachorrentos, de gente vagarosa e às vezes arredondada quase em sanchos-panças pelo mel de engenho, pelo peixe cozido com pirão, pelo trabalho parado e sempre o mesmo, pela opilação, pela aguardente, pela garapa de cana, pelo feijão de coco, pelos vermes, pela erisipela, pelo ócio, pelas doenças que fazem a pessoa inchar, pelo próprio mal de comer terra."

Tem mais: "Um Nordeste onde nunca deixa de haver uma mancha de água: um avanço de mar, um rio, um riacho, o esverdeado de uma lagoa. Onde a água faz da terra mais mole o que quer: inventa ilhas, desmancha istmos e cabos, altera a seu gosto a geografia convencional dos compêndios."

E segue o livro com sua antropologia poética que abarca tanto o cheiro de chuva quanto as pestilências que o litoral, como o sertão, também tem. Doce ciência a embrulhar com papel de pensamento a matéria que os dias de chuva nos entregam em forma de saudade.

domingo, 13 de outubro de 2013

Na contracapa do verão



O título remete a um clássico filme oriental e parece apontar, uma vez reaproveitado no livro, para uma trama meio faroeste brazuca. Mas não é nada disso e mais do que a barba, o que temos no livro do momento escrito por Daniel Galera é uma alma empapada em sangue. Matéria escura, viscosa e repleta de componentes que reforçam os infartos intermitentes desta alma jovem que o livro abre e investiga como quem faz a autópsia de um ser vivo vitimado todos os dias pelo câncer da angústia.

Estamos em Garopaba, sítio de verão mais que conhecido do litoral de Santa Catarina, e transitamos entre lojinhas de estação, bares nem sempre abertos, pequenos postos de saúde, mercadinhos, gente em trânsito, sem futuro definido ou maiores amarras. Neste cenário dá-se a anti-aventura absoluta de um típico turrão - ainda que ele tenha, aparentemente, menos de 30; faixa etária em que este modo de ser no mundo ainda não se cristalizou. "Barba ensopada de sangue" é o livro que enumera as antiperipécias de um turrão em formação: o cara naquela etapa da vida em que começa a colecionar o amargor de dados momentos; quando a personalidade vai fazendo curvas mais derrapáveis; virando a esquina pisando em sandálias que começam a ficar gastas e a pedir substituição. Mas ele, como bom turrão em processo de sedimentação, segue caminhando indiferente ao estado de si próprio e do mundo em volta. Há, em paralelo, a clássica investigação sobre o papel do pai, aqui reelaborado na figura de um avô desaparecido - e quase mitificado; o que não deixa de ser um ingrediente e tanto no difícil preparo que resulta na figura de um turrão juramentado.

Tudo transcorre em aprazível velocidade de cruzeiro literário, a formação do turrão e o argumento narrativo reforçado de que este tipo de pessoa sempre terá suas razões - seu troféu e ao mesmo tempo sua ruína. Há um ritmo e um fluxo constante de fatos e não-fatos, de pequenos incidentes e grandes manifestações habilmente sugeridas - como a aversão da comunidade a este jovem e sua ascendência - , compondo este recorte na vida de um atleta  gaúcho metido na contracapa da aldeia de verão, já que tudo se passa num inverno anticlimático por excelência. Se fosse um Harold Robins ou similar, Daniel Galera poderia ter dado a este livro o título folhetinesco de "O outro lado do feriadão". E escrito nas orelhas para os leitores menos pacientes: uma aventura praieira sobre solidão, família, mitos urbanos e a necessidade de isolamento que todos temos. Seria tudo verdade, cada um dos itens prometidos. Mas a abordagem, que em muitos momentos me lembrou o livro do amigo Carlos de Souza - "Crônica da banalidade", editado em Natal em 1988 - é que ensopa de tempero literário diverso essa barba de narrativas desfiadas em possibilidades, chaves e acasos. Definitivamente, este é um romance que não foi escrito para ser lido à beira mar durante as férias.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O melhor do mundo

Havia prometido a Bernardo trazer no final de semana umas figurinhas do álbum que ele está montando. No meio da semana, depois do Kumon, fomos à banca mas as figurinhas, como se dizia no tempo em que quase tudo era muito mais escasso, estavam em falta. Alguma coisa hoje em dia ainda pode "estar em falta"? Pois as figurinhas do álbum do Meu malvado favorito estavam em falta na quarta-feira nas duas bancas que procuramos, aqui entre as comerciais e residenciais do Sudoeste/Cruzeiro. 

No início da noite de sábado, depois de dar um plantão no hospital pra baixar uma pressão alterada certamente pelos efeitos da seca de Brasília, dei uma incerta numa banca do caminho para casa e as figurinhas tinham chegado. Comprei cinco pacotes para Bernardo e cinco para Cecília - assim eles trocam as "duplicatas", outra palavra que o tempo recolheu ao dicionário mas a volta dos álbuns de figurinhas bem pode trazer de volta à boca dos pequenos e dos adultos saudosistas dos suas próprias infâncias, que felizmente não são poucos. 

Aqui é que está a história: no momento em que, entrando em casa, entreguei os pacotinhos de figurinhas a Bernardo. Ele, em pé mesmo como estava pulando no sofá, abriu os braços e num arroubo que não é muito apropriado de sua pessoa, declarou em altos brados:

- Você lembrou? Você é o melhor pai do mundo!

Já fui criança, já fui filho pequeno e também já colecionei álbum de figurinha o bastante para saber que grande parte dessa declaração está comprometida pela alegria de receber um presente inesperado - ainda que vagamente prometido no decorrer da semana. 

Mas também sou pai o bastante para ter ficado comovido, a ponto de cometer aqui a inconfidência que um Bernardo futuramente adulto talvez até venha a repreender. Acontece que o arroubo do meu filho, cem por cento genuíno ou não, causou aquela espécie de comoção que a gente não consegue segurar, embora disfarce bem no momento em que se dá. 

O fato de as figurinhas terem chegado e de Bernardo tê-las finalmente em mãos, por intermédio de minha pessoa, pode ter comprometido a sinceridade da declaração do meu garoto. Mas o ímpeto e a energia autêntica com que ele botou pra fora aquela frase, externando de imediato seu contentamento em forma de título a mim concedido foi, naquele instante, bom demais. 

Diante do pequeno discurso de agradecimento, só posso responder com seu equivalente tão sincero quanto, dizendo em alto e bom som que Bernardo e Cecília - que expressa seu sentimento de maneira diversa mas não menos intensa - são os melhores filhos do mundo. 

Postagem em destaque

O último cajueiro de Alex Nascimento

Começar o ano lendo um Alex Nascimento, justamente chamado "Um beijo e tchau". Isso é bom; isso é ruim? Isso é o que é - e tcha...