segunda-feira, 14 de julho de 2014

Legado do vexame




Uma prestação de contas pelas previsões furadas; uma retrospectiva sem choro para encerrar o assunto; e um registro sobre outra disputa muito mais nervosa



Não confiem em mim, esqueçam maus palpites, olhem de lado quando cruzarem com meus prognósticos na rua. Sou qual um adivinhão falido, mago desmascarado, feiticeiro a cozinhar nas sopas maléficas do caldeirão onde boiam pedaços de minha própria ineficácia. A Copa começou e um infeliz de um inseto me confidenciou ao pé do ouvido: o pior é que depois de tanta polêmica, vasta campanha mesmo, os estádios até ficarão prontos, mas O Brasil-sil-sil que é bão não passa nem da primeira fase. Munido de tais premonições, pus as barbas em aquosa e relaxante bacia de molho certo de que, quando tal fracasso viesse, pelo menos a mim doeria menos, já que não alimentara o prato frio das expectativas quentes. 


Quando, por fim, o Brasil-sil-sil fez-se Brasil de papo reto, superando afinal a primeira fase do campeonato, topei com um rato na rua – seriam os do Planalto, aqueles que em tempos idos se mudaram para o Senado e viraram matéria de crônica sobre nossos males não menos crônicos? – que, me vendo atravessar uma faixa de pedestres, gritou um “alto lá” e me estendeu a mão aberta em palma como aquela dos tempos da campanha de FHC Presidente:


- Pense em Neymar, pessimista! Veja se não há entre ele e o Romário de 94 (ano da campanha de FHC Presidente, intercalou o rato) um link, um halo, um elo – caetaneou o pestilento mamífero.


Foi o bastante para minha opinião dar uma guinada de 720 graus – duas voltas de 360, caso a matemática da minha volúvel opinião tenha confundido o leitor. Passei a olhar os jogos com outras pupilas: cada olhar marejado na hora do hino era apenas o prenúncio da glória; cada tropeção em campo era apenas o obstáculo pontual que a dramaturgia do futebol impõe à sua falta de lógica; cada bola na trave a explosão de uma profecia, traduzindo em letras do acaso um texto que já estava premonitoriamente escrito.


Nisso, veio o 7X1 – e nunca, em tempo algum, antiguidade incluída, desde as trevas da idade das cavernas, uma previsão se consumiu tão rapidamente. Nem as vítimas da distante inquisição viraram cinzas de maneira tão peremptória; nem o rastag mais usado viu-se sumariamente abandonado de forma tão interneticamente precipitada; nem as mágoas pessoais mais incrustadas de todos os tempos viram de forma tão relampejante sua própria dissolução em um momento de perdão sagrado. Quebraram-se todas as minhas bolas de cristal, fosse o inseto portador de cismas ou o rato transmissor de sinas.


Daí para a frente, não havia nada mais a fazer senão queimar todos os búzios, incinerar os pozinhos que deixam manchas na xícara de chá, não dar atenção nem à ferocidade de uma bruxa chamada rede social nem a um mago ressentido que atende pelo nome de portal de notícias na internet. Que ninguém me diga mais nada – e que eu, humildemente, também não me meta a dizer nada a mais ninguém. Certifiquei-me, realisticamente, da derrota no que, ademais, não passaria de um reles prêmio de consolação – o terceiro lugar tão desprezado quanto a bola de ouro por Messi ao final da última partida, derradeira derrota a abrir chagas em conflagrados corações (não fomos os únicos, nem a exclusividade nos foi reservada).


Deixei a Arena Triunfo de confortáveis memórias – a companhia dos amigos que ajudou a suportar o pior placar, pegando o atalho da esculhambação que nos salva quando não há mais nada a fazer – e voltei à minha analítica rede de Ponta Negra aberta na sala de casa. Nada de torcida, nenhuma fé, vazio de esperanças. Voltei a ser só um olho diante de um aparelho de tevê. Tirei o foco do coração e o recoloquei no cérebro. O nervoso foi embora, a assistência se apascentou. Nunca uma derrota, um quarto lugar assim-assim soou tão inofensivo – e não estou falando das discussões que decorrem desse panorama todo, mas do momento mesmo, sem ais de internet nem sais de mesas redondas. O jogo acabou, o Brasil sem sil perdeu, uma só de minhas previsões enfim haveria de se confirmar, qual matéria de vidente do tipo vestibular, aquele que por precaução trabalha com múltiplas escolhas.


A Copa das Copas acabou, merece este título nem que seja pelas surpresas desagradáveis, o ano vai começar, outra disputa muito mais sofrida está a se iniciar e, precavido e escaldado, em relação a esta, já vou adiantando: sou péssimo analista, furado previsor, desmoralizado profeta. Por isso, nem me peçam previsões, prognósticos, antecipações. Tudo o que posso dizer é que há mais do que a simbologia do futebol em jogo. E se essa já nos dá tanto trabalho, avalie aquela. Uma bola saiu de campo e outra entrou, os dados foram lançados e os votos estão a caminho. Melhor não chorar quando soar o hino. Se é para manifestar emoções apressadas, melhor fazer como os alemães, que trocaram o choro pelo canto alegre dos Pataxós. Lembrando que eles só o fizeram quando tudo estava consumado.

domingo, 6 de julho de 2014

Sufoco na Arena Triunfo




Um tevê que soluça durante o jogo, um fogareiro no lugar do micro-ondas e um controle remoto que muda de canal na hora mais dramática de Brasil X Colômbia. Acompanhe com a gente o drama que foi assistir à partida na casa de um casal amigo. E veja os caminhos tortuosos que a sorte pode percorrer

Tinha tudo pra dar errado: a manada da internet e da mídia em geral secando técnico e jogadores, o efeito prolongado dos pênaltis da partida anterior, a expectativa de marcação em cima da celebridade Neymar, a imobilidade a caminho de se tornar clássica de Fred, certa zanga particular do país que não perde uma só oportunidade de se declarar inferior a qualquer espirro primeiromundista e por aí agora. Tudo o que a gente aqui em casa não precisava era de mais sinais de derrota antes do jogo da Seleção Brasileira da última sexta-feira. Mas a gente conseguiu piorar  ainda mais a situação. E da maneira mais amigável possível.

O amigo Renato Ferraz convidou a gente, de última hora, pra assistir à partida no bangalô dele e de Aninha, ali onde o Sudoeste é quase Setor Gráfico. Bora? Tamos aí. A quinze minutos do início da partida, juntamos umas trouxas de retirante com objetos de sobrevivência para quem tem criança e está em dieta médica e rumamos à casa do casal amigo. Com o nervosismo da partida, seria mesmo uma ótima ideia assistir ao jogo em grupo, assim sem prestar tanta atenção, pois que nestes casos quanto menor é o estudo maior é a possibilidade de o resultado doer menos. Um pouco de esculhambação sempre ajuda na hora mais dramática – isso nós, brasileiros, não cansamos de ensinar ao mundo.

Mas uma vez chegando à casa dos amigos, começou uma sucessão de maus agouros inesperados e quase curiosos, de tão fora de padrão. Levamos uns pacotes de pipocas pra os meninos terem com que se ocupar naqueles momentos em que tudo o que a gente não quer ver é um  pirralho passando na frente da tevê em lance decisivo. Abri logo minha bolsa térmica alimentar de ansioso quase cardíaco pra tirar as pipocas e a comadre Aninha me avisa, constrangida, coitada, que está sem micro-ondas. Olhei pra Renato e fui logo dando minha facada tipo paraibano – aquela que, depois de entrar fundo no bucho do adversário, ainda torce fazendo força no cabo da peixeira:

-Que  é isso, companheiro, retrocedeu aos tempos do fogareiro?

Podia haver sinal pior, no início daquela partida, do que o viajado compadre Renato, um cidadão do mundo que a  bela Triunfo, em Pernambuco, cedeu chorando ao cosmopolitismo mundial? E não é que podia? A ausência de micro-ondas em tão distinta e tecnológica casa – o anfitrião é editor de informática do Correio Braziliense, não esqueçam – foi apenas a primeira das mandingas involuntárias daquela sexta-feira de fortes emoções. Pois mal começa a partida e notamos algo estranhíssimo no aparelho de tevê. A televisão de Renato, moderna como ele, de vez em quanto dava uns disparos e interrompia a transmissão, parava de funcionar, áudio e vídeo, pra em instantes voltar. Jogo e tela preta, tela preta e jogo. Um  negócio de uns dois segundos, tempo suficiente, sabe-se bem, para o telespectador perder um pênalti favorável ao Brasil, pois não?

- Ô, Renato, o que é isso? Você convida a gente e quando chega aqui sua televisão tá com soluço?



Renato apertou botão, retirou e recolocou aquele cartão da Net que, de fato, é capaz de tirar o juízo de qualquer outro assinante, e nada. Achou pouco e ainda tentou convencer a gente com uma solução tipo gambiarra: ligou a outra tevê, que fica no quarto dele, com o som bem alto e disse que pelo menos a genta “ouviria” o que estava acontecendo enquanto a tevê principal estivesse curtindo seu soluço que, por sinal, ficava cada vez mais frequente. Rejane matou a charada:

- Renato, quem diria: assim a gente volta aos anos 50. Vamos “ouvir “ a Copa, como se tivéssemos acompanhando pelo rádio!

Você consegue em pensar em sinal pior do esse? Isso era aviso de derrota certa. Felizmente o problema da tevê foi resolvido com um reles, básico, elementar e rasteiro reset desses que a gente dá, na base do não resta mais nada a fazer quando o infeliz do computador trava na hora mais imprópria. Ainda havia, porém, uma última surpresa nesta noite que, não por acaso, acabaria com Neymar fora da Copa, num evento tão cruel que nem cabe na tentativa de lustrar com humor o sofrimento que também foi o jogo da sexta-feira passada.

Tevê funcionando, pipoca garantida com base no forno comum, até um gol também meio na base do soluço mas garantido, olho pra Renato, esse expert futebolístico que humilha minha clássica ignorância sobre o esporte bretão, e o que vejo? O compadre, em vez de exibir olhos grudados na partida e nos presentear com comentários de quem sabe de cor a escalação dos últimos dez anos do Sport de Recife – ou seria o Santa? –, estava ocupado em...limpar o controle remoto da Net. Limpar não diz bem o que ele fazia enquanto a gente sofria sem tirar os olhos da televisão. Ele praticamente esterelizava o controle, usando um paninho e o próprio sopro pra investigar poerinhas em junções, cantinhos e minúsculas fissuras do aparelho. E o jogo que se danasse, é possível?!



Já ouvi falar de muitas manias de torcedores, mas essa, francamente, não esperava. Devo dizer que havia ainda uma consequência adicional que muito nos importunou: nesse trabalho meio autista de limpar o controle remoto da Net enquanto a bola rolava – pra quem viu o jogo anterior da Seleção aboletado no Mané Garrincha, esse comportamento de Renato era de inspirar Regina, a psicóloga da Seleção, concorda? – ele aqui e ali acabava apertando involuntariamente o botão seletor de canais. E saber o que acontecia? Na hora do drible mais esperado, do chute mais assustador, do contra-ataque menos óbvio, a tevê – aquela mesma que pouco antes ainda soluçava como que chorando profeticamente por Neymar – mudava de canal. Sim, mudava de canal. De maneira que, bola nos pés de David Luís, a gente tomava um susto com o corte brusco pra novela mexicana do SBT...

-Porra, Renato, isso é lá hora de limpar controle remoto?

O resumo do sofrimento é que, para além do trauma coletivo em que nos vimos mergulhados com Neymar, deu certo. E a gente já tratou de avisar que para a próxima terça estaremos todos lá, com nossos cacarecos, saquinhos de pipoca (os mesmos que levamos sexta e que sabemos que não servirão de nada), meu lanche de pré-infartado em recuperação e tudo o mais. Porque todas aquelas mandingas que nos ameaçaram tanto e que narrei aqui na verdade foram como talismãs ao contrário. O que era um tremendo sinal de má sorte acabou, joelhada em Neymar à parte, garantindo nossa vitória. Então, Renato e Aninha, fiquem espertos: nada de consertar o micro-ondas (nem comprar um novo, que pode ser o passaporte certo pra a derrota) e se for preciso chamem um técnico da Net meia hora antes da partida para garantir que a tevê volte a apresentar o mesmo defeito de sexta-feira passada. Pelo menos nos dez minutos iniciais do jogo. Se a televisão não pifar, vai ser um péssimo sinal. Quanto à limpeza de controle remoto, não se preocupe: já estou juntando todos os que tenho pelos quatro cantos daqui de casa para lhe dar trabalho até sair ao menos aquele primeiro gol que, se não garante a vitória, ao menos ameniza o sofrimento inicial. Até terça!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Natal em dia branco



Foi uma visita de médico (brasileiro, not cubano, ao que consta) a Natal no final de semana que passou. E nos recebeu entre a tarde de sexta e os finalmentes abreviados do domingo uma cidade quieta, calma, tranquila como ela um dia terá sido. Natal meio vazia, sem um só, solitário e agoniado reclamão no trânsito; Natal clara, vestida de branco como um protesto destinado a acabar em grossa pancadaria, branca como uma velha canção de Geraldo Azevedo. Uma Natal julina, baixo-estacionada em intervalos de pacotes turísticos. E, no entanto, cheia deles no hotel. Mas nem assim - Natal go back, oitentista num piscar de olhos entre uma sexta e um domingo. 

Teve show na Ribeira, compromisso familiar - o aniversário da matriarca Izabel, que merece todas as homenagens -, teve praia apesar do nublado julino que não faz diferença alguma; ao contrário, mantém aquecido o corpo sem tostar o cangote. Tinha tudo pra ser massacrante, corrido, ansioso e demarcado e no entanto tudo soou como um sunday de pitanga, açaí com mel na entrada do conjunto Ponta Negra onde, aliás, nem deu tempo de ir. Natal fora de feriado, quase fora de temporada, fora das caixas registradoras e meio fora de si como convém vez em quando. Natal do alheamento, quando você encosta o cotovelo num cascudiano canto de muro e deixa-se estar, sem mais. 

Nem a agonia da recepcionista do hotel que, num rompante, emparedou o colega de trabalho que se atrasou ao seu chamado - "que foi, tava com dor de barriga?" - tirou a placidez da minitemporada. Respirou-se, livre de horários por absoluta exiguidade do tempo disponível mesmo, o ar da passagem das horas. Tomou-se o sol dos últimos estertores do horário de verão, bebeu-se a água do "é comigo?", cheirou-se o perfume do fica pra depois e assim ajustou-se a nova e frenética Natal Citi de ganhos e despesas numa, como é que se dizia até outro dia pensando que se estava a falar mal do lugar...?, numa, isso mesmo, província abençoada do não ser e não estar. 

A propósito, pra quem achar que a abstração pode comprometer a qualidade da homenagem: esqueçam, vez em quando, Ponta Negra e Pirangi, e corram para lugar mais próximo e de uma tranquilidade que vai explicar muito do que foi dito aqui: as praias desconhecidas da Via Costeira, nos oitões dos hotéis, onde se tem farta faixa de areia, um ou outro vendedor afixado para lhe garantir uma bebida (não mais que isso, como tantas vezes convém), espaço à vontade e uma sensação sem palavras de mar de infância, dessas que ilustravam antigos livros didáticos da segunda série primária. Você vai descobrir outra Natal.*

*De toda aquela extensão da Via Costeira, recomendamos a praia situada atrás do Hotel Parque da Costeira: você tem estacionamento à vontade e uma rua pavimentada em paralelepípedos para lhe levar até à beira do mar. Sossego que hoje, quando existe, custa caro. Lá, é de graça.  

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O listão do Leitor Bagunçado

 

Como acontece todo final/início de ano, o Leitor Bagunçado é chamado às fuças pra prestar contas de sua produtividade ao longo dos doze meses anteriores. Afinal, não basta ganhar um apelido bacana - é preciso estar à altura dele e mostrar, na chincha, o tutano que lhe dá sustância. Uma lista muito coerente de livros lidos ao longo do ano, portanto, é bola fora. O que vale mais é a balbúrdia literária, que ora joga numa biografia matadora (como "Steve Jobs", um painel incidental do mundo da informática, que fechou o ano e é de dar saudade por várias semanas), ora vai de romance noir como há tempos não está nem um pouco na moda - pior para a moda (é o caso de "O longo adeus", Raymond Chandler).

Falar em moda, o Leitor Bagunçado frequentou, sim, títulos que se tornaram meio obrigatórios, como o cool e brazuca-invernal "Barba ensopada de sangue", de Daniel Galera - uma história que infesta com dramaturgia de desencontros familiares um vilarejo típico de verão. Só pra não manter coerência alguma, citemos agora o bravo, corajoso (porque autêntico) e sobretudo comovente (uma característica difícil de se encontrar num ensaio) "O fole roncou". Ao se arriscar a empacotar em um só livro as mil e uma biografias dos músicos que dão vida ao forró, de Gonzaga a Dominguinhos, de Marinês a Seu Vavá (quem? Genival Lacerda), os autores tratam esse gênero musical com o respeito e a importância que ele tem na cultura nordestina - diga-se mais, na indústria cultural nordestina, que garantiu ao forró um outro estatuto. 

É para mudar radicalmente de assunto, garantindo o caráter bagunçado do insistente leitor? Então bote aí "Ostra feliz não faz pérola", pacote de textos paracomportamentais de Rubem Alves, autor que o dito leitor desconhecia até este ano. Precisa voltar a este oráculo da modernidade.  Também ficamos em dia com a bagunça da modernidade tucana da era FHC lendo, bem depois de todo mundo ou com o atraso regulamentar a "Privataria Tucana" do repórter Amaury Ribeiro Jr, cuja documentação é vasta, mas qualquer leitor sabe que, independente da legitimidade, documentos são sempre chatos: o melhor do livro é o clima nos primeiros quatro capítulos, um rastro de suspense e tensão inerente aos turbulentos episódios narrados. Se você quer conhecer melhor os meandros por onde andam os eternos presidenciáveis do partido - Aécio e Serra - passe os olhos neste livro. 

"Hamlet no Holodeck" nem deveria estar aqui: é leitura semiprofissional, usada por mim na monografia que escrevi sobre TV Digital para uma Especialização da Universidade Católica de Brasília. Mas como é bom, viu? Quase bota minha dissertação a perder, desviando de vez o tal do foco. Gosta de seriados, de hoje e de antanho? O livro vai lhe animar bastante. Mas é do tipo que só comprando pela internet, sob encomenda e tal. Se o seu caso é mais um ensaio de maior gravidade, experimente voltar a Erick Hobsbawm, com o "Tempos fraturados" lançado este ano. A recomendação é que primeiro leia um dos clássico do historiador que nos deixou este ano - eu fui de "A era dos extremos" há alguns anos. Esse "Tempos" vai soar mais duro aos seus olhos, mas mesmo assim tempera nossas dúvidas mais recentes, especialmente se você é do tipo que ficou todo animadinho com os protestos de junho. Cuidado para não se entusiasmar muito e acabar tirando conclusões impacientes como as de um black bloc embriagado. 

Grandes narradores, do tipo inesgotáveis, que se jogam nos textos e o afundam o leitor nas suas águas, seja este bagunçado ou não, também frequentaram a lista de 2013. Lembro o velho Bukowski de "Hollywood", com um argumento sob medida para o seu espírito bebum-transcendental: a encomenda de um roteiro pro cinema que nunca vai sair conforme o esperado. Outro exemplo é o Ian MacEwan de "Serena", com uma metalinguagem tão bem realizada que você nem desconfia até chegar ao último parágrafo. Belas ideias sobre livros, leitores e leituras. Ou um autor serialista, desses que enchem listas de mais vendidos com seus investigadores recorrentes: fui de Daniel Silva e seu "O caso Rembrandt".

Tem como passar 365 dias sem ler nem um título sequer sobre o mundo do cinema? Impossível, como comprova a lista 2013 do Leitor Bagunçado, apresentando o legalzinho "Alfred Hitchcook e os bastidores de Psicose", de Stephem Rebello, que veio junto com o filme adaptado. Na mesma estante, "Alguma solidão e muitas histórias", livro-depoimento do cineasta João Batista de Andrade, o homem por trás de filmes como "O homem que virou suco" e "A próxima vítima" (este, um pequeno clássico noir-paulista feito nos anos 80, injustamente esquecido). O volume da conhecida coleção da Imprensa Oficial paulista é de uma angústia de fazer medo - tanto mais porque soa verdadeira, nem um pouco glamourizada. João Batista é um homem triste, fazer o quê? Como dizia Leminski (que, apesar do sucesso do relançamento de suas poesias, não está na minha lista deste ano), "um homem com uma dor é muito mais elegante". Inteligente, com certeza, o livro é. 

Pra encerrar na ordem inversa de leitura - como convém a um leitor que se julga bagunçado - vamos aos três primeiros livros lidos no ano que passou: a memória de Clotilde Tavares que, por se tratar da vida num internato acabou lembrando a minha própria ("Formosa és"); outra reminiscência embora trabalhada em tom de literatura direta ("Relato de um certo Oriente", de Milton Hatoum); e a biografia de Dilma Houssef escrita por Ricardo Amaral, que foi o livro em que eu ingressei em 2013, sob o aprazível ambiente de um hotel em São Salvador da Baía de Todos os Santos. O título era, é, será sempre inspirador: "A vida quer é coragem". E alguma bagunça, que ninguém é totalmente de ferro nem completamente de vento.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Goyaz

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Cenas da Cidade de Goiás durante o feriadão da Proclamação da República: é um goianinho curtido pelo tempo carregando seu matulão, é o almoço no mercado, é o anúncio do mototáxi no chão da calçada, é a bicicleta de plantão e por aí afora. Não chega a ser nenhum Photo&Grafia da sempre esperta Zuleika de Souza, mas são imagens que tocam o coração de quem veio de uma outra versão deste mesmo mundo interior.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Nossos leitores




O título acima não se refere aos leitores do blogue (antes que perguntem, gosto dessa grafia, que é a forma como o ex-blogueiro cearense-potiguar Francisco Sobreira empregava no seu desativado diário; soa mais português, a palavra impressa parece sair mais cantada). Os leitores em questão aqui são dois, bem específicos, cujas circunstâncias os coloca num patamar ainda mais especial quando se trata do exercício de submergir numa massa de textos e dela extrair imagens, mistérios, verdades, novidades e fascinantes interrogações. Nossos leitores são Bernardo e Cecília, nossos filhos que todo dia surpreendem a gente na simpatia que vão tomando pelos poderes da palavra escrita - sem precisar abrir mão das mais convencionais formas de diversão da idade deles. 

Aviso que este é um post absolutamente família, tipicamente "hamaca de poti" - porque, se o leitor não percebeu, aqui está precisamente a diferença, sutil diferença que não precisa gritar seu nome por aí, entre a Hamaca e o Sopão. Continuemos: os livros, nesta idade, e apropriados a esta idade, com massa de textos mais esparsa, ilustrações que servem de pontuação gráfica e demais recursos, vêm mesmo é do contato com os amigos. A primeira literatura é a literatura "da turma" (as demais não seriam? sim, até certo ponto mas só até ele). Foi assim que os livros da série "Os Seis" pegaram a mim e a meus amigos nos tempos do antigo curso primário, ali pela quarta-série, numa cidade que, sem livrarias, valia-se do reembolso postal para conseguir fazer chegar os livros.

Voltando ao presente, vamos a Cecília, que demorou para aprender a ler - pais, relaxem, é normal - e um dia nos pediu o livro inicial da série da "Garota nada popular": são cinco tomos, graficamente escrito numa tipologia que imita a caligrafia infantil, pontuada por charges, e, sinal dos tempos - pelo menos foi assim que percebi pelas poucas vezes em que peguei os livros - centrada não na criança-modelo, mas exatamente no seu oposto: aquela que não acerta, que faz tudo errado, que se atrapalha. Considerei saudável, embora sabendo que há um modismo inerente a essas séries às quais a meninada não resiste (o mesmo se pode dizer dos brinquedos; ora é a indefectível Barbie - pais, relaxem, é assim mesmo, depois passa - ora é, como agora (até quando, hein?) as bonecas Monster High. 

Pois bem, leitores, Cecília leu todos os cinco livros da série. Assim, sem que a gente tivesse sequer tempo de nos dar conta da rapidez. Empacou agora no sexto volume - que saiu há pouco tempo - porque viciou-se (relaxe, pai, agora sou eu que digo pra mim mesmo) no YouTube. Fui fazer a besteira de mostrar pra ela - justo por causa da Monster High - o video do Thriller de Michael Jackson... Pra quê? Ela aprendeu a pilotar o canal de videos, fez um curso completo nas músicas do astro americano e agora, depois que uma colega "do quarto ano" tocou ao piano e cantou "Let it be" sozinha numa apresentação na escola, está se iniciando no mundo dos Beatles, via YouTube... Vai ser difícil ela terminar de ler o último volume da Garota nada popular. 



Enquanto isso, Bernardo - que aprendeu a ler na velocidade e naturalidade de um espirro - pediu pra gente o equivalente masculino da série da Garota nada popular: sim, senhor, o igualmente indefectível "Diário de um banana". Pelo título dá pra ver que o espírito é o mesmo: rir da própria figura e das trapalhadas que fazem parte da infância. A molecada se identifica. Acontece que Enrico, o melhor amigo de Bernardo na escola, andava lendo o volume inicial do Banana (depois deste inicial, o leitor escolhe um dos outros vários títulos para continuar acompanhando o personagem e suas históricas). 

Compramos o primeiro livro e ficamos ali, achando que com a eletricidade que lhe é própia, Bê não ia passar da página 15. Pois ele saiu da livraria já lendo o livro enquanto caminhava - o que por sinal virou um hábito, mas Sandra, irmã de Rejane, garante que a mãe de Bernardo lia andando de bicicleta! Quando vimos, Bernardo, no mesmo dia em que o livro foi adquirido, já passara da página 80. O livro foi comprado num sábado e na terça seguinte o nosso leitor já havia dado cabo. Precisou esperar até o sábado seguinte para ganhar mais um volume - que, mantendo o ritmo, leu durante a semana. Pessoal, é o seguinte: Bernardo está lendo um "Diário de um banana" por semana!

Não é pra menos: fui ler um trecho pra saber o que estava oferecendo ao meu filho e tive um ligeira crise de riso: a parte que li fala de uma armação do Banana - que é como Bê chama o personagem - para arrancar dinheiro dos amigos: ele monta  no porão da casa de um colega o que seria uma espécie de casa assombrada. Paga-se o valor do ingresso - que ele aumenta por dez quando vê a inesperada fila se formar - e ganha-se o acesso ao "salão do sangue", quarto de não sei mais o quê e assim por diante. Claro que é tudo improviso e que depois do primeiro pagante o pai do colega, dono da casa, desmancha aquela bagunça toda. 

Mas como é divertido, sobretudo se você tiver no seu currículo infantil a aventura de ter inventado um cinema usando uma caixa de papelão grande com um furo no meio, histórias em quadrinhos coladas como se fossem um filme e uma vela para fazer o efeito da projeção. E se tiver, claro, cobrado um ingresso de dez centavos de cruzeiro para quem quisesse entrar no cinema que você montou com seu seu primo tão esperto quanto você. E cuja sessão durou só um dia porque algum adulto não gostou muito desse espírito empreendedor e tratou de fechar o estabelecimento.  

Enfim, é nesse cruzamento de brincadeiras pouco rentáveis mas certamente muito criativas com narrativas de outros empreendedores iguais a você que essas séries vão formando novas levas de felizes - e introspectivos, e curiosos, e contemplativos - leitores. O que surpreende a gente é quando tais criaturas aparecem no sofá da sala da casa da gente. Do tipo que quando a gente chama - vai almoçar, menino! - ele demora pra escapar das garras de tão envolvente leitura. E que isso esteja acontecendo em tão - como é que se diz? - "tenra idade". Nossos leitores estão por aí, em casa, no carro, às vezes lendo enquanto caminham na calçada, e a gente fica feliz de passar esse bastão pra eles, sem que tenhamos feito qualquer grande esforço para isso acontecer. O máximo que fizemos foi o mesmo que eles: não conseguir nos livrar dessa mania besta de estar sempre lendo - e não ter o pudor de exercer tal vício na frente deles. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Chuvas, litorais, telhados e praias



Amanhece um dia de chuva sobre o Sudoeste organizado que me arremessa feito nuvem de verão diretamente sobre os telhados curvos da praia de Pipa. Não agora, mas lá pelos idos de 1993-94, quando fomos todos, eu, Rejane, os cunhados Sandra e Novo com Raísa criança e Rafael ainda bebê, meu pai e minha mãe passar um fim de semana na pousada de Ana Anita, a “Praiana” que fica naquela rua onde durante anos a areia natural venceu o calçamento oficial. 


Houve sol (fotos abaixo), mas houve também muita chuva, razão da nostalgia disparada pelo gatilho da manhã em branco. Não tinha importância, como não tem agora, já que o que contava então e conta aqui é a emergência da umidade litorânea. Só quem veio do sertão habitualmente seco – mas extremamente verde e multicor quando as chuvas da infância vinham – pode entender a força dessas águas. Às vezes só o tempo nublado já basta para anunciar sua iminente presença, aproximação amiga. 


À tarde, víamos a chuva cair como um cobertor macio sobre os telhados de Pipa, retocando as cores daqueles tetos, muitos deles de casas ainda humildes hoje derrubadas para dar lugar aos novos empreendimentos. A praia toda, o horizonte inteiro que um quarto tipo família no andar superior da pousada oferecia à vista, ganhava uma mão de pintura natural que fazia ainda mais luminosa a paisagem em volta. Lembro da fachada de um antigo bar, o Hendrix, e da linha do mar com um verde-azul mais saturado boiando sobre os telhados, caixas d’água, murinhos e folhas de coqueiro. E a sinfonia dos pingos regendo tudo.  


Essa umidade entra pelo corpo da pessoa, faz algo como uma transfusão natural do líquido que domina grande parte do nosso organismo. Quem já nasceu em meio a ela pode não perceber, mas os esqueletos sertanejos como eu a experimentam como um milagre não registrado nos cartórios vaticanos. É exatamente o mesmo tipo de sensação que tinham quando, adolescente, passava temporadas na casa do amigo Ítalo em Recife, e também mais tarde quando atravessei todo o ano de 1984 cursando Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco: bastava o ônibus da Viação Progresso, vindo de Campina Grande, aproximar-se de Goiana e aquele verde da costa já começava a operar suas químicas na minha ressecada pessoa. A Zona da Mata sempre terá algo de paraíso perdido ou inalcançável - e o nômade Severino do poema de João Cabral é prova disso.

Até hoje há uma planta que me evoca essa epifania de geografia humana. Queria ser minimamente conhecedor da botânica para indicar o nome aqui: tudo o que posso dizer é que ela cheira a umidade do mar e felizmente está em todo lugar, como se fosse uma embaixada da costa onde menos se espera. Quando isso acontece, eu e Rejane quase disputamos para ver quem detecta primeiro: “Aquela planta...” 

Estrada de Trancoso 
Anos mais tarde o prazer da imersão neste mundo-litoral se faria ainda mais forte. Foi quando visitei a Costa do Cacau e espalhei restos do meu queixo caído nas estradas deste litoral baiano ao deparar com a autêntica paisagem descritas nos romances de Jorge Amado - e, mais impressionante ainda, com pessoa que pareciam ter pulado dos livros diretamente à realidade. 

Não é que a gente duvide dos autores que nos habituaram à dádiva da leitura: é que é muito forte - ao menos para corações desprevenidos, como o meu - dar de cara na estrada velha de Trancoso com uma baianinha cheirosa e adornada que por todos os efeitos lembra mais um personagem caprichosamente composto do que alguém de verdade. O mesmo se pode dizer de um velho tangendo bichos no acostamento de uma BR próxima a Itacaré - assim como de todas as crianças que habitam essa comunidade famosa pelos costões de coqueiros e rochas junto ao mar (registros dessa viagem nas fotos abaixo)




Toda essa peroração pessoal em torno de chuvas, litorais, telhados e praias o senhor leitor encontra em termos muito mais apropriados em Gilberto Freyre, fonte evidentemente muito mais autorizada. Sugiro que vá direto a “Nordeste”, o livro do velho sociólogo onde achei, em milimétricos detalhes e calorosas interpretações – o melhor de Gilberto é que ele escreve sempre com paixão – as explicações para esse meu apego nostálgico a essas coisas do litoral. 


O que o morador do casarão de Apipucos me disse, como quem assobia uma canção de Caimmy ao pé do ouvido, foi que o segredo deste fascínio está na doçura muito própria dos tabuleiros do litoral nordestino. E, embora se apoie nisso, a conexão com o cultivo da cana-de-açúcar vai além de uma abordagem meramente econômica.

Mel de engenho

"A cana-de-açúcar é uma planta profundamente ligada à água, ao contrário da planta que foi sua concorrente na ocupação do espaço nordestino, o algodão. Daí a separação entre as áreas de cana e as de algodão, entre o Nordeste úmido e o Nordeste seco", antecipa Manoel Correia de Andrade, professor da UFPE, na apresentação do livro de Freyre. 

Ao que o autor acrescenta, depois de reclamar da visão de um Nordeste unificado então vigente - hoje, bem menos, graças à feliz intervenção dos produtores de cultura desta nossa variada região: "Esse Nordeste de figuras de homens e de bichos se alongando quase em figuras de El Greco é apenas um lado do Nordeste. Mais velho que ele é o Nordeste de árvores gordas, de sombras profundas, de bois pachorrentos, de gente vagarosa e às vezes arredondada quase em sanchos-panças pelo mel de engenho, pelo peixe cozido com pirão, pelo trabalho parado e sempre o mesmo, pela opilação, pela aguardente, pela garapa de cana, pelo feijão de coco, pelos vermes, pela erisipela, pelo ócio, pelas doenças que fazem a pessoa inchar, pelo próprio mal de comer terra."

Tem mais: "Um Nordeste onde nunca deixa de haver uma mancha de água: um avanço de mar, um rio, um riacho, o esverdeado de uma lagoa. Onde a água faz da terra mais mole o que quer: inventa ilhas, desmancha istmos e cabos, altera a seu gosto a geografia convencional dos compêndios."

E segue o livro com sua antropologia poética que abarca tanto o cheiro de chuva quanto as pestilências que o litoral, como o sertão, também tem. Doce ciência a embrulhar com papel de pensamento a matéria que os dias de chuva nos entregam em forma de saudade.

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