conexões entre amigos, livros, filmes, discos, memórias, férias, viagens, natal e brasília
terça-feira, 12 de maio de 2020
LEITURA 30, um desafio - Dia 1
Isolamento chegou, todo mundo inventou algo, desengavetou coisas que não fazia há tempos, botou em prática projetos pra amenizar os efeitos dos dias e dias tentando sair de casa o mínimo possível.
Pois eu também acabei arranjando aqui um "projeto" pra esse tempo, embora ao longo dos dias úteis não me sobre tanto tempo assim, já que no meu caso o tal do teletrabalho funciona e muito bem - às vezes tem mais trabalho do que quando eu ia fisicamente pra meu postinho de atuação, meu terminal que me dá saudade, meu cantinho na TV Câmara. Vamos ao tal projeto.
Tenho o mau costume de assistir aos videos dos booktubers e me divertir com a maneira como eles fazem quase um exibicionismo cultural enquanto falar mesmo da essência dos livros, do que eles trazem, representam, incentivam, expõem ou destacam oferecem de fato muito pouco. Mas é sempre bom esse povo todo falando de livro, ainda que se você fizer uma estatística vai notar que a maioria fala dos mesmos livros, os mesmos lançamentos, comentam e recomentam os mesmos clássicos numa verborraria tantas vezes vazia e que poucas vezes joga uma luzinha que seja em algo novo, um aspecto não notado, uma característica que o próprio passar do tempo acaba dando a livros tantas vezes lidos. É fácil falar de clássicos - não se corre riscos.
Gosto dos booktubers, não desejo o mal deles, acho que mesmo mascando clichês já sem gosto pelo tempo decorrido eles ainda dão alguma contribuição num país de tamanha indigência literária (não por parte dos autores, mas dos leitores, ou da falta deles), mas dos que vi até agora dificilmente tem um que se arrisca e chega aos escritores não tão conhecidos, pouco badalados e que merecem pelo menos um pouco de curiosidade por parte dos leitores. Sinto muita falta da nossa Clotilde Tavares, que injetava um pouco de inteligência - e rock and roll, se me entendem - neste panorama das moças e rapazes que querem se tornar referência para a indicação de livros ao público em geral. Numa palavra, falta personalidade aos booktubers.
E chega de preâmbulo: o fato é que, navegando entre booktubers, encontrei um que anuncia um plano mágico sobre como ler 5 livros por mês. Eu fiquei atraído na hora. Mesmo levando em conta que talvez, quem sabe, quando o trabalho não puxa tanto, eu consigo ler 5 livros por mês - 5 não, mas 3, ou melhor, 2 - sem planejamento. O fato é que, na falta de "projeto" melhor para, no futuro, contar aos netos e bisnetos como foi que eu enfrentei bravamente aquele período da quarentena contra o coronavírus, resolvi aderir ao desafio.
Não é complicado, não é milagre e pode servir pra muita gente. Não tô falando de gente que não lê, que desiste depois da página 20, público iniciante. Não, pode servir pra mim também, leitores bagunçados como eu, pra otimizar, pra disciplinar melhor o tempo, pra solidificar um hábito que já tenho mas nem sempre se rende à distribuição das horas e tarefas do dia.
O cara faz uma matemática que torna menos difícil, digamos assim, alguém ler 5 bons livros por mês (entre pequenos, médios e pelo menos um "grande", tipo 400 páginas em média). Pegue os livros e some o número de paginas de todos eles, depois divida por 30. Vocês me perdoem as considerações numéricas meio acacianas mas desde tenra idade eu tenho um respeito pela matemática que me obriga a ser de um didatismo quase pedestre quando trato com essa matéria. Se não for assim, eu erro. E erros de matemática já me deram grandes prejuízos pessoais, acreditem (tipo transpirar de nervoso por necessidade de tirar aquela nota alta, quase máxima, para passar de ano na 7a serie ou no 2o ano do ensino médio, e chega de confissões).
O segredo aqui é que, feita a divisão, em média o resultado vai dar entre 40 e 50 páginas - que é o que você precisa ler por dia (o mínimo, bem entendido) para que, completados os tais 30 dias, tenha afinal lido aqueles 5 livros que lhe pareciam tão difíceis de atravessar.
Peguei minha caderneta e a calculadora do celular e joguei-me ao mar das letras e dos números.
Empilhei os livros que desejo submeter a essa exótica experiência:
-Otelo, a peça de Shakespeare (148 páginas)
-Nove Histórias, J. D. Salinger (que quero muito reler, 206 páginas)
-The Last Olympian, Rick Riordan (o último da série de 5 livros que ainda falta ler, 381 páginas na edição em inglês)
-Zen e arte da manutenção de motocicletas, Robert M. Pirsig (um livro que sempre quis ler e só agora consegui um exemplar via Estante Virtual, 388 páginas)
-A Arte da Ficção, David Lodge (um ensaio que despertou minha curiosidade publicado na série de bolso da L&PM, 236 páginas naquela letrinha miudinha lá deles).
Somando tudo e dividindo o número de páginas que tenho pela frente por 30 dias, deu 46 páginas (arredondei, na verdade deu um decimal insignificante) por dia. Moleza.
É ou não é? Rapaz, em livro bom, da metade pra frente, a gente tendo tempo passa das 100 páginas facim, facim. O problema, desconfio, são os dias em que a gente, assoberbado pelas tarefas do cotidiano, esquece ou não consegue ler aquele livro que está bem interessante até.
Como sou avesso à rotina, esses buracos de dias sem ler são muito comuns pra mim. Quem sabe com o "projeto" eu resolvo isso?
Esta terça-feira, 12 de maio de 2020, foi o primeiro dia. A reta de chegada fica no dia 12 de junho. Será que vamos conseguir? Ou conseguiremos até antes, como diz o booktuber lá nos videos que é muito comum acontecer. Primeiro dia. Fui bem? Sim, senhor, li bem mais do que as 46 páginas iniciais de "Otelo", porque o danado do Shakespeare, com um bom roteirista objetivo e ligeiro, não perde tempo e vai direto ao ponto. Duas páginas e a traição armada por Iago já iça velas e ganha o mar da superfície das páginas. E então você vai junto e até esquece da meta mínima e quando vê já está quase a desconfiar da terra à vista ali adiante.
Descobri que em Otelo, Shakespeare...
1) dá spoiler, na boa. Mais que isso, usa o spoiler abertamente pra prender o leitor (no caso o público do teatro, vocês me entendem). Iago, em conversa direto com quem o lê ou assiste, faz igual a Ricardo III e adianta o que pretende fazer. Dizem que o público típico de novelas adora spoiler, ao contrário do público típico de séries tipo Netfix e similares. Pois o público típico de novela ia adorar Shakespeare Clair na sua técnica de dizer antes, na verdade um falso spoiler, porque o personagem diz o que pretende, adianta alguns métodos, mas a realidade de como isso vai se dar na prática só vamos saber lendo. Funciona que é uma beleza.
2) O cara é muito bom de falas. Tem umas que você pode usar na vida pessoal. Exemplo: "Jogue suas conjecturas na goela de Satanás, que é de onde você as tirou". Nas 24 horas dos turbulentos dias atuais, não faltará oportunidade pra você surpreender os idiotas que lhe cruzam o caminho com arremedos de ideias, tipo terraplanistas de várias colorações, saindo-se com um frasão deste. E nem precisa dar o crédito. O ignorante vai achar que você é um gênio.
3) Shakespeare é autoajuda, e das melhores. Ilumine-se com este trecho: "Lamentar um infortúnio que está morto e enterrado é dar o passo certo na direção de atrair para si novo infortúnio". Palavras do Doge de Veneza na Cena III do I Ato.
4) Como Shakespeare faz para que Desdemôna, tão doce, tão bela, tão branca e tão rica seja seduzida pelo negro e guerreiro Otelo, pintado pelos outros personagens como pouco mais do que um valente homem de batalha despossuído de outros dons ou talentos? Ora, usando a mesma tática daquele célebre mito literário das mil e uma noites - contar histórias. Narrar é seduzir, é o que o bardo acaba dizendo na cena em que Otelo explica aos demais homens como "pegou" a donzela filha do senador Brabâncio. "Agradeceu-me e pediu que, no caso de ter eu um amigo que a amasse, ensinasse a ele como contar minha história, e isso bastaria para enamorá-la", diz o negão na lata diante dos branquelos incrédulos. Foi contando as aventuras que viveu que Otelo se aproximou da futura esposa.
5) e tem mais um pouco de autoajuda, que eu não resisto porque é bom demais: "Como são pobres os que carecem de paciência! Que ferida alguma vez cicatrizou que não fosse por etapas?" Palavras do canalha Iago, que pode ser uma peste em matéria de má influência, mas não é burro nem um pouco.
E assim foi, entre sentenças tão instigantes, o meu primeiro dia do projeto Leitura 30, vamos botar um nome pra coisa pegar e impor respeito. Já disse que não sou afeito à rotina, mas farei um esforço sobreliterário pra todo dia vir aqui e contar como foi cada dia desse desafio.
Para o primeiro dia, um saldo adiante de umas 10 páginas (não calculei, porque as obrigações normais do dia chegaram e não permitiram essa exatidão), já me dou por animado.
Torçam por mim e até amanhã.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
CLANDESTINO AO SOL
Apesar das 11h da manhã, a rua estava deserta. Um sol de inverno forte lavava fachadas e calçadas, mas o fato de todas as lojas, bares e restaurantes estarem fechados, portas cerradas, dava à manhã um ar de noite alta, madrugada até.
Passei com o carro lentamente, pra não errar a localização do estabelecimento. Não são muitos como ele, mas a confusão entre lojas de tintas, outras de molduras, restaurantes self service, de produtos automotivos e assemelhados confunde quando a gente passa assim, olhando pela janela a 30km por hora.
Achei. Reduzi a velocidade mais ainda quando vi um faixa de pano amarela, daquelas chamativas, com dois números de telefones - um celular e um fixo. Que bandeiroso, pensei. Precisava tanto?
Mas também pensei na mesma hora que poderia ser uma tática para provocar justamente o efeito inverso. Tanta bandeira servia para, pelo excesso, esconder o lugar. Um aviso de papel comum, desses com página de caderno pautado arrancada às pressas e mal colado com durex na parede poderia ser muito mais suspeito. Coisa escrita a caneta bic, como fazem os presidentes que querem posar de gente comum no poder.
Ok, uma faixa publicitária chamando atenção para o próprio lugar ali à frente. Como já vi aquilo com o carro em movimento, o cérebro, esse ser desconfiado que trazemos trancafiado na quarentena eterna da caveira que um dia seremos, demorou para me mandar parar o carro numa vaga. Nenhum problema, pois que são tantas as vagas nessa temporada de vírus e pestilências políticas.
Parei o carro, por efeito da minha habitual falta de reflexos mais imediatos, uns cem metros além do estabelecimento. Alguém poderia observar que fiz bem, que foi pra disfarçar um pouco. Não foi, mas acabou sendo, poderia ter sido. O fato é que ninguém me seguiu enquanto eu saía do carro e caminhava lentamente para diante da faixa amarela.
Vejam, não sei quem poderia ser mais bandeiroso naquele momento, se a faixa amarela gigante ou eu mesmo ali diante dela, copiando os números dos telefones num aplicativo do celular.
Até porque foi uma operação demorada, indigna de qualquer pessoa que precise sobreviver passando despercebido em tempos de ruas desertas e desconfianças de várias naturezas. Ocorre que, vista ruim como sempre fui, o reflexo do sol alto me atrapalhava, criando, se é possível dizer assim, uma sombra de claridade na tela do aparelho onde eu mal conseguia distinguir os números que tentava escrever.
Naquele momento, eu poderia ser facilmente cercado por fiscais, ou policiais ou quem quer que seja. Completamente desarmado como alguém que tenta se concentrar em algo tão absorvente como é um telefone celular. Você se ausenta de tudo, alguém pode apontar uma arma para você que não há, ao menos a princípio, qualquer reação. Nem medo - o telefone como que chupa nossa atenção, como se fôssemos adolescentes vendo pornografia em livros proibidos sob a carteira durante a aula de português.
Não sei como, escapei de mais essa. Ninguém me deteve, não passou nenhum outro ser vivente pela rua, o sol continuou inclemente sobre a avenida, o meio-fio, a calçada e as fachadas das lojas fechadas.
Naquele momento, titubeei - admito. Olhei pra fachada com aquelas portas puxadas até o chão, aquelas dobras de metal que pareciam me lançar um afaste-se terminativo e refleti, sempre correndo a cada segundo o risco de ser abordado sabe-se lá por quem. E decidi.
Lutando contra a claridade das sombras que vitrificava mais ainda a tela do celular, puxei o teclado virtual e digitei um dos números que havia anotado - o mesmo da placa amarelona e chamativa à minha frente.
Enquanto digitava, reparei que uma mulher comum, dessas do povo, mal vestida e feia, certamente funcionária do self service vizinho que provavelmente estava fazendo entregas de casa em casa por um desses coitados que varam a cidade de bicicleta, bateu na porta de metal como quem, com o punho fechado, chama na porta de uma pessoa qualquer. Como estava com atenção voltada para digitar o número do telefone, não consegui distinguir bem, mas notei que houve uma brevíssima conversa entre a mulher e alguém dentro do estabelecimento. Assim me pareceu porque a mulher logo voltou para a loja vizinha, ou restaurante que fosse, como quem está satisfeita com a resposta que teve.
Isso me encorajou mais ainda a ligar para o número, uma vez que acabara de descobrir que, sim, como eu imaginara, havia gente dentro do estabelecimento.
De fato, fui atendido ao primeiro toque. Perguntei se de alguma forma estava funcionando, a voz no outro lado - voz masculina, comum, tipo garçom ou vigilante de banco - disse que sim. Perguntou se eu sabia o endereço. "Estou aqui em frente, agora", adiantei, sem saber que tipo de risco estava correndo. Quando vi já havia dito. Veio um "então, pronto", olhei para o céu em busca da proteção que pudesse ter e dei o primeiro passo.
O primeiro passo. Quanta história não já rendeu, desde aquele provérbio chinês que os comunistas adoram. Toda caminhada tem um primeiro passo, precisa de um primeiro passo. E eu que nunca fui comuna por falta de coragem, nunca fui louco de direita por ter decência e juízo, ali estava eu também precisando dar o célebre primeiro passo. A vida não quer saber se você tem vocação para herói ou sina de perdedor - um dia, mais cedo ou mais tarde, aquela convenção que sempre lhe pareceu idiota vai lhe confrontar, exigir que você faça algo de concreto, vá além do sim, pois é, então e use na vida um vocabulário menos dependente de verbos de ligação, meu caro. Aja. Dê o primeiro passo.
Dei-o. E procliticamente me dirigi ao estabelecimento, ainda sob a bênção dada não sei por quem de não ser visto ou notado. Ao me aproximar da porta, esta foi levantada - mas apenas na parte central dele, que era dividida em três blocos metálicos - com aquele rangido que é tudo o que menos se espera em momentos como esse.
Um rosto comum, de mulato brasileiro cuja vida se dá entre limpar uma mesa de bar e vender pacotes de pipoca nos sinais de trânsito, saiu lá de dentro e vinha me abordar. Na hora, lembrei que deixara a carteira com dinheiro e cartão no carro, assim como a máscara facial de proteção contra o maldito vírus.
"Um minuto só", pedi, explicando que precisava voltar ao carro. Somente naquele momento percebi o quanto o carro estava longe e o tamanho do risco que voltara a correr num deslocamento simples que em tempos normais seria absolutamente insignificante. Cada passo foi como um bateria de escola de samba marcando o ritmo no coração. Na avenida W3, via que corta o Plano Piloto de Brasília, desfila a GRES Unidos da Cardiologia Temerária. Demorou séculos, mas consegui pegar a carteira e máscara, fechar o carro e me ver, com alívio, na Praça da Apoteose deste anticarnaval que vivemos.
Entrei no local e a porta foi fechada quase raspando meus calcanhares. Imediatamente. À minha vista surgiram três outros mulatos, magros, legítimos brasileiros. Um sentado atrás de um balcão, outro numa cadeira mais atrás e um terceiro andando em minha direção. Parei e esperei.
Ele me fez um sinal para ir até uma parte na lateral do estabelecimento. Fui, seguindo o mulato. Quando vi estava diante de uma escada. "É lá embaixo?". "Sim".
Desci rapidamente seguindo o moço, ainda meio perplexo para dar conta de analisar o ambiente. Ao chegar ao subsolo, notei uma mesa de sinuca no fundo, com tacos pendurados nas paredes. E nos balcões, todos aqueles apetrechos cortantes, perfurantes, gumes de vários formatos e dimensões, além daquele cheiro entre hospital e farmácia, reforçado pelo fato de estamos em um subsolo sem janelas. Em algum recanto deveria haver um exaustor.
Acomodei-me na cadeira e, depois de tanta tensão, cedi à necessidade do momento. Entreguei ao céus o resto das minhas reservas e esperei pra ver qual seria o resultado daquela aventura praticamente clandestina.
E não é que o barbeiro fez o melhor corte de cabelo que já tive em toda a minha vida? Ah, essa quarentena e suas surpresas.
P.S.: Ao sair, perguntei sobre dias e horários de "funcionamento" e fiquei sabendo que apenas parte dos barbeiros trabalham para não haver muita proximidade nem entre eles nem entre os clientes. Há uma escala, mas de segunda a sábado corta-se cabelo e faz-barba ali. O mulato que me abriu a porta só fez um último comentário antes de eu sair, dizendo que a qualquer momento poderia vir uma nova determinação para eles não funcionarem. Aquilo me trouxe de volta todas as suspeitas daquele início de manhã de maio e fiquei me perguntando, mas será que eles realmente têm autorização para atender ou eu acabo de cometer uma desobediência civil?
segunda-feira, 20 de abril de 2020
OS LIVROS DE A.
O neobeletrista Adriano
publicou 4 e tantos livros de poesia.
Para melhor ler o mais recente
Li-os todos de
um gargarejo só.
Sobrevivi para pontuar,
ainda que tossindo
elaboradas propatoxítonas
em frente ao mar.
O antibeletrista Adriano
publico Flô em 1998.
Beletrizou com uma flora
de vocabulário em desuso
- botânica pisada por botas
de falso modernismo -
zil canteiros de sépalas,
grânulos, gramaves
e eleatas.
O pós-beletrista Adriano
publicou O Alvissareiro em 2001
Poema-testemunho que
varreu a casa velha inteira
e guardou o pó num vaso
de serifas extirpadas.
Dos objetos primordiais
ao alto da torre que tudo vê
saturou a Cidade do Sol
com a luz de outro jarro.
Beletrizou o poema-manifesto,
hino que as bocas locais,
engolfadas com areia,
não teriam afinação suficiente
para cantar na hora do recreio
à beira-mar.
(e se as palavra imploram
por um mergulho no dicionário
o muro de contenção aproveita
o espoucar das ondas para
cantar que, aqui, o ritmo é
sempre superior à semântica)
O suprabeletrista Adriano
publicou Saartão em 2004
Mirando com seu teodolito
de sentenças os hectares
cobertos tanto pelo bíblico
quanto pelo pop
Profecias e cinema-poeira
Jó e Canal 100
Tudo na mesma ribanceira
pedregosa onde a roça
de versos germina papéis
coloridos de confeitos
voando entre redemoinhos
de memórias em pânico
O jamais beletrista Adriano
entrou na era de 19
- tempos de misera geral -
publicando O Livro de O.
Doce infusão de cânticos
a vestir os feixes de ossos
de uma alma maravalha.
Leite seco se perdendo
nas frestas do areal interior;
punhalada ou tiro,
extermínio dos desperdícios
que estão a nos formar.
Poemas serializados,
soluços em três versos
- as letras da datilografia
dizendo tudo sobre quem
não queremos ser.
quinta-feira, 11 de abril de 2019
Uma biografia acidental
Jack London, o escritor, morreu aos 40 anos. A causa nunca esteve totalmente livre da dúvida: decorrência de uma dose excessiva de analgésico para suportar as dores causadas por enfermidade nos rins ou suicídio puro e simples, à base de uma overdose de morfina? Martin Eden, o personagem, morreu jovem - embora não se possa precisar a idade. E não houve dúvidas: matou-se jogando-se ao mar numa viagem ao fundo do que julgava ser uma grande insignificância. Isso depois de escalar um muro social sem apoios e recoberto de cacos de vidro - sair de uma vida mal alfabetizada de marujo miserável para o posto de rico escritor de sucesso na era das revistas de short stories.
Entre os dois existe algo mais concreto do que trajetórias parecidas, obstáculos similares, desfechos incomodamente semelhantes. Há, entre eles, "Martin Eden", agora sim, o livro propriamente dito, protagonizado por este e escrito por aquele. O romance é bem um retrato da época em que viveu London (1876-1916), os preconceitos vigentes, os estatutos sociais em voga, os gostos aceitos, as preferências elogiáveis, os tipos possíveis de fama e a vasta exposição das misérias possíveis. Mas o lastro social que o painel constrói não deixa de evidenciar, a cada etapa vencida por Eden, o caminhar difícil do próprio London, que faz com que o livro, segundo os tampas da matéria, possa bem ser considerado uma espécie de autobiografia acidental. London também foi marujo - mais tarde, já bem sucedido, seguiu viajando com seu veleiro Snark por mares e ilhas nunca dantes navegados, lapidando com seu lado aventureiro a reputação que já vinha aspergindo com seus clássicos "O Lobo do Mar" e "O Chamado Selvagem".
Ocorre que, como seu pesonagem no "Martin Eden", Jack London também enfrentou os vales da pobreza da transição do século XIX para XX, experimentando, por exemplo - e em um de seus fracassos - a vida difícil da corrida do ouro californiana, que se não lhe rendeu punhados de ouro acabou lhe fornecendo farto material para encher de vida os dois personagens caninos com que furou o rochedo do anonimato literário. London foi tão pobre quanto Eden e tanto como seu personagem bateu em portas e mais portas até que tivesse a qualidade de seus relatos e contos aceitos - mais tarde, celebrados, justamente como ocorreu com o personagem - pelo grand monde das revistas da época.
O escritor teve, além da enfermidade que levaria à sua morte, outro revés que Eden não enfrentou ao longo da curta vida: certificar-se de quem foi seu pai biológico. O homem a quem procurou, por uma indicação de sua mãe, negou peremptoriamente que fosse seu pai. Jack London ficou órfão mesmo, enquanto até hoje nós aqui embaixo, na planície da literatura que, se não chega aos píncaros, ergue belos castelos populares que conquista massas de leitores, nem nos importamos com isso. Jack London, pra mim, era isso: um multi-ativista das letras e do conhecimento como está na moda hoje em dia (embora o prefixo multi acabe servindo para muita picaretagem sem valor), um antropólogo informal, um jovem Câmara Cascudo sem mimos formado no calor das ruas e em cultura diversa mas tão curioso quanto o potiguar da Junqueira Ayres. Um outsider digno do nome.
É algo triste ler seu "Martin Eden" por constatar a angústia que, por
meio do personagem, pode ter lhe tomado os derradeiros anos - justo o oposto da energia que costumamos associar a ele ao ler seus clássicos mais conhecidos. Ainda assim, como nas provações vividas pelos animais em quem soube como ninguém injetar alma e humanidade emprestada, há ali até certo ponto as vírgulas da leveza com que ele narra suas histórias.
Jack London não foi Herman Melville, "O Lobo do Mar" não é "Moby Dick". Mas não se engane, que a singeleza aparente de suas histórias pode conter tantas dores da humanidade quanto o cânone mais abastardo, embora o grau de literatura neste seja naturalmente muito mais superlativo.
quarta-feira, 14 de março de 2018
CANETTI
“No final de janeiro, Hitler chegara ao poder. Daquele
momento em diante, cada acontecimento que se seguiu parecia sinistro, de um
significado sombrio. Tudo me dizia respeito muito de perto, senti-me envolvido
em tudo o que se passava, como se tivesse estado presente a cada uma das cenas
de que tinha notícia. Nada fora previsto. Explicações, ponderações, mesmo
ousadas profecias eram nada, se comparadas à realidade. O que ocorreu foi, em
cada detalhe, algo inesperado e novo. O contraste entre a pequenez das ideias
propulsoras e seu efeito era incompreensível. Em meio a tanta perplexidade,
porém, uma coisa era certa: aquilo só poderia desembocar numa guerra – e não
numa guerra acanhada, insegura de si própria, mas numa que irromperia orgulhosa
e voraz, como as guerras bíblicas dos assírios.”
Elias Canetti, “o Jogo dos Olhos”
domingo, 11 de março de 2018
A PRAIA OU A CRÔNICA*
Todo fim de ano por aqui ou no Facebook ou no Twitter eu
faço meu apelo desesperado: gente, vamos largar tudo e correr pra praia. Nada
com um bom banho de sol e de mar pra todo mundo esfriar a cabeça. Isso já tem
uns três anos – porque é desse tempo pra cá que o país resolveu não perder nenhuma
oportunidade para que todos, em cada local de trabalho, na rua, na escola, na
igreja ou na rede social, trucidem-se mutuamente. A arma usada é uma
intolerância calibre 38. A munição quem quiser pega à vontade num arsenal
chamado Ignorância S.A. que tem lucrado um bocado, com uma clientela fixa.
Hoje eu vou variar: se não dá pra ir à praia, porque você é
uma mistura de jornalista com servidor público que trabalha e portanto mora em
Brasília, a uns mil quilômetros por baixo da praia mais próxima, não se aflija.
Como diria a filha do grande filósofo Gilberto Gil (já simplificando
midiaticamente tudo o que o pai, coitado, levou décadas para construir) você
pode substituir a praia por...crônicas.
Porque, pense bem, analise à sua volta, indague às costuras
da sua roupa (os botões já falaram demais, perderam a originalidade,
convenhamos): quem neste Brasil em guerra ainda faz uma pausa no seu dia para
ler uma crônica? Os jornais até que publicam – mas a pergunta volta: quem neste
Brasil metido em disputas suicidas ainda interrompe uma boa briga nos
comentários de um site tipo porcaria para ler um jornal? Suprimindo ainda mais
a situação pra chegar ao caroço incômodo da questão: quem ainda lê?
Se não lê nada, que dirá crônicas, esse gênero que parece
datado de outros tempos, onde havia outro tipo de sensibilidade, em que se
cultivava outra forma de apreciação da vida, em épocas nas quais o tempo
parecia transcorrer com outra velocidade? Lembro com saudade o tempo que livros
de crônicas enchiam as listas dos mais vendidos nos jornais e revistas – ora era
um Luiz Fernando Verissimo com as delícias de figuras como o Analista de Bagé,
ora a carioquice malandro-literária do tijucano Carlos Eduardo Novaes. Até
hoje, se por acaso o seu filho adolescente manifestar alguma curiosidade sobre
os tempos em que o Brasil sofria com uma inflação galopante, na década de 80,
não dê pra ele nenhum manual de economia – ofereça as crônicas de Novaes que
contêm a alma daquele período. Nem preciso lembrar da época em que, a cada final
de ano, além do LP e do especial de tevê de Roberto Carlos, todo mundo ficava
ansioso pelo lançamento do novo livro – de crônicas, quase sempre – de Fernando
Sabino.
Se o amigo chegou até aqui, sabe que vou deixar uma dica
matadora que explica por quais motivos eu fui me lembrar dos efeitos benéficos
da crônica para quem deseja suportar as agruras maléficas do Brasil atual: o
mais recente livro de Clotilde Tavares, “Notícias da existência do mundo”, que
acabo de prazerosamente atravessar como quem passeia por uma avenida cheia de
prédios bonitos, ruas acolhedoras, jardins cheirosos, livrarias convidativas e
outros elementos urbanos que as crônicas da autora sempre evocam.
Enciclopédica como sempre, divertida como só ela sabe ser,
estimulante como de hábito, lá está Clotilde nos dando notícias de várias
manifestações desse mundo – de um curiosíssimo texto sobre as falas dos bichos
até suas aventuras e desventuras com dois dos personagens mais presentes nas
crônicas, os gatos e os “cereshumanos”, passando por uma muito peculiar figura
chamada “Madrinhadal”. Nem vou dizer o quê ou quem é. Se o amigo quiser, bata
lá na porta de Clotilde como eu fiz – ou mande e-mail – e adquira esse “Notícias
da Existência do Mundo”. Que, de tão bom, quando acabou me abriu o apetite pra
mais e mais crônicas. Lembrei a tempo que tenho uma seleta aqui de Rubem Braga na
estante e me refestelei, continuo a me refestelar, enquanto o Brasil lá fora
segue se bestializando.
*O
título desse texto-projeto-de-crônica é uma humilde citação de “A bolsa ou a
vida”, crônica de Carlos Drummond de Andrade que li num livro didático de “linguagem”
quando estava ali pela sexta série do ensino básico. Bons tempos aqueles em que
se começava a ler crônicas na escola pública logo cedo. Espero que continue
assim.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Churchill, Oldman and Lithgow
Quem é o melhor Winston Churchill, o de Gary Oldman, que está agora em cartaz nos cinemas (“O destino de uma nação”), ou o de John Lithgow, que está em cartaz na Netflix, na série The Crown? Compare e veja – dificilmente o amigo terá do que reclamar. São dois Churchills tão verdadeiros – o de Gary mais, como diria, “sebosão” e por vezes inseguro; o de Lithgow, mais firme e formal, – que você nem vai sentir falta do original.
Em tempos de Trumps and Temers, não é demais relembrar
grandes líderes, gente contraditória como todos, mas que, por uma vocação de
pensar bem e sofrer faíscas cerebrais de intuição essencial, estavam nos
lugares certos quanto o mundo vivia os momentos mais errados. O drama político
brasileiro, com um país correndo o risco de ser entregue aos mais aventureiros
e irresponsáveis carreiristas por ter se esquecido de forjar novos
protagonistas – ou de fortalecer os poucos que surgiram, ao invés de sufocá-los
– é um cenário perfeito para se medir a necessária estatura desses condutores
da massa humana.
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